terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Uma novidade.

Agora eu ganhei um espacinho no blog http://bardoescritor.blogspot.com/.

Fiquei feliz.

Todo dia 28 vou poder lagartoletar por lá!

Hoje já fiz isso.

Vai lá ver?


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sobre o tempo III

Não faz muito que descobri os campos de espaço-tempo curvos.

Em silêncio, reconheço: na verdade, ainda não os descobri.

Que tempo é esse, que me esconde o espaço em que você est(á)(ava)(eve)?
Que dimensão do espaço-tempo escondeu você?
Em que tempo da minha dimensão você se camuflou?
Na dimensão em que você esteve em mim, como me dimensiono no tempo teu?

Quando tempo-espaço seguem juntos, em que lugar-momento está você?
Quantos milésimos de espaço-tempo dura o seu lugar?
Quantos lugares, ao mesmo tempo, você pode ocupar em mim?
De quantos você, em um único tempo, eu posso me ocupar?
Quantos de você tenho em mim?
Que tamanho tenho em você quando me vejo em ti?

Me disseram que o espaço se curva com o tempo. Que isso dilata o tempo.
Que é a relatividade.
E deve ser mesmo relativo.

Por que o tempo nosso não dilatou?
Pareceu tão curto.
Seu espaço, algum dia, vai se curvar sobre o meu tempo?
Tenho medo que a curva do seu espaço sobre o meu tempo me tire do lugar.
O espaço do meu lugar não se curva no infinito com o seu tempo.
O seu tempo curvou o meu espaço no infinito.
O seu infinito tomou espaço demais no tempo meu.
Meu infinito já não cabe mais no seu.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ponto de fuga.

Foi em julho desse ano, em São Paulo.

Me disseram para olhar para o Oceano.
Quero dizer, me disseram para imaginar o oceano.

"Qualquer que seja a altura em que se observa, o horizonte estará na linha dos olhos"

É a linha do horizonte.

Se quiser perspectiva, aí você deve utilizar os pontos de fuga. 1, 2, 3 ou muitos pontos de fuga!

Muitos pontos de fuga?
Nunca pensei ouvir isso. Nunca pudera imaginar o quão fácil seria encontrar um ponto de fuga, quiçá múltiplos!
Não sei como eu não imaginara antes. Que óbvio.

É lógico que é no oceano que estão todos os pontos de fuga.
Não é preciso ser nenhuma encantadora de baleias para descobrir isso.

Basta olhar lá, na linha do horizonte.
É lá que estão os nossos pontos de fuga.

Desde então eu tenho procurado por eles, mas sempre me parecem muito longe.

Como faz pra chegar a linha do horizonte mais pra perto?
Como alcança ela?
Será que dá pra burlar a lei do espaço, ou então encontrar esse tal espaço curvo, e alcançar a linha?
Se der, fica um pouco mais fácil.

Uma vez alcançada a linha é só se equilibrar um pouquinho para caminhar até o ponto de fuga mais próximo.
E pronto.

Foi quando ele perguntou: "Onde está o ponto de fuga, turma?"

E eu respondi: no mar.

A turma riu.

Na hora do storyline, ele não hesitou: Marina se perde na linha do horizonte e não acha o ponto de fuga.


Passado o trauma, meses depois, resolvi devolver, a quem quer que seja o dono, as tais. 

sábado, 27 de novembro de 2010

Novo layout





Para quem vê cara e coração, um layout novo!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sobre o tempo II

Quando o tempo lá fora conversou com
o meu tempo aqui dentro
choveu.

Uma chuva fina.

Quando o tempo aqui dentro já estava chovendo
e o tempo lá fora se afinava comigo,
ventou.

Um vento frio.

Ventou aqui dentro na chuva lá fora, fria
e choveu aqui fora uma chuva de dentro
em ventania.

Nessa transfusão de tempo,
de dentro pra fora,
de fora pra dentro.

Ele me perguntou:

no meio do vento, ao tempo, você chove ou chora?

No meio do tempo, ao vento, eu apenas molho.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Quebra de dormência

Do desenrolar do que está guardado, surge um pequeno brotinho.
Para alguns, potência.

No brotar verifica-se a atualidade do que estava guardado.
Confere-se. Confronta-se.

E é bonito pensar que guardado, junto ao que seria futuro-broto, está tudo que o broto precisa e é. - o próprio broto, em forma anterior.
Na mudança. No antes, o meio.
E o broto, o depois.

Desvela-se do interior do abrigo o que estava em reserva. O que nutria.

Germina.

Quando em dormência, porém, há a espera. A latência.

Escarificar?  Calor? Frio? Fogo?
O que quebrará a dormência, dessa vez?

É que, sabe-se-lá-porquê, ela está a dormir.
Guardada no que a transformará no que virá-a-ser.
Imersa em um mar de memórias, que nutrem o seu por-vir.

Virá?




Dormência: período de vida no qual o metabolismo de um organismo é temporariamente suspenso. Muitas sementes entram em períodos de dormência. Algumas só germinam no frio. Outras no calor. Outras quando passam pelo trato digestório de algum animal. Outras quando em contato com o fogo. Para acelerar a quebra de dormência de algumas plantas cultiváveis, podemos escarificar as sementes.


E para quem não leu, eu gosto deste texto: http://lagartoleta.blogspot.com/2009/11/anemocoria.html

domingo, 26 de setembro de 2010

Sobre o calor.

Quanto maior é o calor, maior o grau de agitação das moléculas. 
Maior a tendência de que elas se distanciem umas das outras.
Se percam umas das outras. Na forma de vapor.
Quanto maior o calor, maior a distância?

Ah...então...foi isso?!

Para garantir, postei nos classificados. Do dia 18/09, no Correio.







quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Silêncio.


É que às vezes não queremos dizer nada além do que se diz em silêncio.
É que às vezes o que se diz em silêncio desconforta o Outro.
É que o silêncio conversa com nossos desejos e medos mais profundos.
É que a gente teme pelo que o silêncio pode dizer sobre o que a gente tenta  guardar a sete chaves.
No silêncio desvela-se um mundo de não-palavras barulhentas, de não-barulhos palavrosos.
As palavras, que tanto mascaram, libertam a intimidade recatada, no silêncio.

Quem tem medo do silêncio?


Eu

sábado, 11 de setembro de 2010

O soma é o todo de suas partes?

Foto que eu roubei do orkut do Tchelo


Quando as lagartas amadurecem, nascem as borboletas.
Já é sabido de todo mundo isso.
Mas quando as borboletas nascem, morrem as lagartas?
Borboletas são lagartas, eu acho. Mas o contrário não.
Quando o processo está no meio, tem-se a lagartoleta.
E o  que separa uma da outra é o que está entre.
Eu adoro o que está entre. 
E tenho um pouco de agonia do que está antes e depois. No início e no fim.
Contudo, não sei separar o entre da coisa, do antes, do depois, do início e do fim.

E se não existe o entre?

Então lagartoleta não é entre, é o ente. 

Todas as possíveis filosofias para uma metamorfose me encantam.
Todas as metamorfoses me encantam.


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

De ônibus.

Eu adoro viajar de ônibus.

Eu gosto do tempo que circula a viagem.

Na minha obsessão por listas, que já foi até mencionada, eu listo em papel e caneta.

E tenho assim a lista dos 10 principais motivos pelos quais as pessoas poderiam gostar das viagens em ônibus. A recomendação é de que se viaje sozinha, à noite e por no mínimo 10 horas. Vale a pena!

1) Se você vai sozinha, tem aquela ansiedade inicial: quem vai ao meu lado? Alguém que ronca? Respira alto? Que fala muito? Que nunca fala nada? Que não desce na hora que o ônibus para e te faz ter que dar um meio pulo desajeitado no meio da madrugada?

2) A saída lenta, o abandono devagar que deixa as pessoas, aos poucos, para trás. Acenando. Algumas choram.

3) Cada curva é sentida pelo corpo e embala um monte de pensamento. As alterações de velocidade são capturadas pelos sentidos e guiam a mente da gente. As curvas na estrada, à noite, embalam memórias e embolam sentimentos.

4) As mudanças de paisagens inspiram, ressecam o olhar, esfriam a cabeça, acolhem o coração. O Brasil é grande demais e diferente demais. Tem gente que mora na beira da estrada. Tem queijo e banana. Tem barraco. Tem araucária, soja, eucalipto, cerrado. Tem Biologia um monte.

5) Os barulhos sem dono no meio da noite são uma sinfonia disforme; tosses, espirros, sussurros, roncos. Às vezes, o celular que encontrou o sinal perdido na estrada. Às vezes gases intestinais e odores. E odores no banheiro. E toda essa diversidade de sons e odores trazem uma enorme lembrança do que estava um pouco esquecido: somos bicho gente, com barulhos e fedores.

6) As paradas pra esticar a perna. Para alguns um cigarro, quase desesperado. Para outros uma coca-cola, um café, um queijo quente. Eu gosto mesmo é do café doce e ruim. Pra lembrar que é da estrada, que é da viagem, da passagem, do indo. Comida com gosto de indo, com gosto de perna esticada. Momento de desviar o olhar para o que desvia na via, da via.

7) Uma pausa no tamanho do outros. E por algumas horas, quem sabe muitas, só você e você.

9) O tempo que corre diferente, mais lento, menos angústia, menos ansiedade. Dá tempo de tudo no mundo do pensamento. O pensamento tem tempo pra tudo. E a vida inteira se repagina, se replaneja, se repensa. E muitas decisões acontecem e desacontecem.

9) A sensação de ir. Simples e dada. Ela por ela mesma, sem necessidade de explicação. Ainda que, na maioria das vezes, haja a certeza do voltar.

10) Na mochila o que parece necessário para 17 horas: música, livro, banana passa, maçã fuji, lápis e papel. E o encantamento de precisar de tão pouco para acontecer tanto.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

De gota em gota, pinga.

Eis que, de gota-em-gota, pinga, há anos, um amor.
Há anos ele me pinga. Há anos me emaranha e me mareia.
Pinga no mar, meio turvo.
De tanto que há tanto que pinga, aos poucos, os monstros do mar se desfazem.
Nessa linha do horizonte, onde o barco costumava despencar, me vejo percebendo a curva.
Aprendi a decorar os monstros marinhos. Monstrus marinus.
E aos poucos a deixar a maré me embalar.
Sem marear. Só mar. Só ar.

Dos amores que vieram em correntezas fortes, pouco pesquei.
Eu tenho esse amor que me pinga.
E vem brotando do meu mar a cada instante.
Quem sabe os Monstrus marinus, muito em breve, liberem de vez esse amor que vem em ondas.

Quem sabe de tanto viver na água-mar, esse amor aprenda a evaporar.
E depois a chover.
Quem sabe ele me pingue um delicioso rio de água doce.
Em uma chuva bem fininha, livre de sal.

"O amor chove, não chove?"


domingo, 15 de agosto de 2010

Sobre um grande amor.

Pra terceira leva de #versificados desse ano, a sugestão foi falar sobre o dia dos pais. Sobre o pai. Os pais.

Aí balancei o berço das memórias, e algumas incríveis acordaram.

Lembrei de quando ele nos buscava na escola e fazia a proposta surpresa: pedalar até o "cu do pato", comer uma massa e dormir. No dia seguinte nos levaria para a casa da mamãe novamente.

Depois do "cu do pato", como ele chamava um lugarzinho que ficava há uns 10 km da casa dele, cansadas, ele nos faria uma massa para comer. E quando era hora de dormir, sem as nossas camisolas, que estavam na casa da mamãe, ele nos emprestaria camisetas.

Mas ele tinha mais de 1,80 m. E eu deveria ter no máximo 6 anos de idade. Elas ficavam tão grandes. Tocavam o calcanhar e passavam da dobrinha do braço.

Era hora de dormir e ele cantaria, alto: "dórminhapequena não vale a pena despertar!"

Eu sabia que tudo estava bem.
Que eu estava segura.
E que ali, bem ali naquele quarto, ao lado da minha irmã, sob a voz do meu pai, existia o amor.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Nas vésperas de partir - sempre!

Da "lista de coisas que mais gosto de fazer na vida" tenho viajar como número I.

De personalidade escapista, adoro arrumar as malas.
E fazer planos em papel.

Quando eu falo em viajar sozinha escuto o mesmo "ah, sério? tadinha."
E nunca entendo.

Sinto frio na barriga quando penso no café que vou tomar, sozinha, quando cansar de caminhar, sozinha, por entre as ruas.
E sinto frio na barriga porque sei que todo esse sozinha vem acompanhado de uma enorme companhia de mim.

Eu fico enfadada de tanto "outras pessoas" que carrego no meu cotidiano: durante a semana - "útil - nunca consigo ficar mais que duas horas sozinha e passo pelo menos 10 horas rodeada, sendo visto e pensada, por cerca de 40 pessoas. É assim que é ser professora de escola. E olha que eu gosto.

Nada como, nas férias, passar alguns dias fazendo "nada" aos olhos dos outros.

Algumas pessoas não podem entender o que é ficar feliz estando gripada, olhando a chuva que cai na Paulista, tomando um café com as costas levemente doloridas de tanto caminhar. Estando por cerca de três horas no mais absoluto silêncio.

A ausência da companhia permite a tranquilidade das decisões repentinas e silenciosas, tomadas com naturalidade tal que parece que foram tomadas há séculos. Como aquelas que foram tomadas no mesmo segundo em que meu olhar tocou o letreiro do cine Belas Artes, no meio da Consolação. E foi muito silenciosamente-rápido que decidi e pude entrar no cinema, comprar um espresso e um ingresso. E assistir, sozinha, o filme de 2003.

É isso.

Gosto das decisões tomadas tais quais um gole de café que pedi em um lugar qualquer, simplesmente porque olhei e escolhi, sem saber de nada antes. Sem saber se viria amargo, adoçado, meio frio, meio forte, meio sem graça. Sem prejudicar ninguém. Sem implicar nada em outra pessoa. Só em mim.

No meio do caminhar, do café, do sentar, do entrar e sair de estabelecimentos comerciais, parques e banheiros públicos, desvela-se o que andava escondido no furor da comunicação absurda e extrema que me ronda o dia-a-dia. O silêncio ensurdecedor da Rua Augusta me leva a um espaço que vem se tornando quase desconhecido, mas que eu conheço e reconheço há 27 anos e poucos meses. Gosto do silêncio dos carros, árvores, pessoas e máquinas da rua. Tornam-se trilha sonora pra uma introspecção tão necessária e bonita.

Silêncio na alma, tão abarrotada de barulhos internos, externos, mistos, contíguos.

"Precisa-se de silêncio para ir ao interior"

E quando estou onde estou sem ter aonde ir, sem necessitar dizer, explicar, decidir, torna-se indiferente meu contato físico com o momento. Passo a circular livremente por dentro da minha cabeça. Meus pensamentos alteram minha noção de tempo e se encaixam com o infinito. Surgem novas perspectivas. Desvela-se no silêncio um pouco do que sublimei por meio de tanta fala. A mente à deriva. O que escapa e desvia embaça as imagens e ideias.

Vem surgindo, aos poucos, o desespero.

E a necessidade de voltar a falar.

Um encontro marcado e volto, como sempre, volto a falar. Muito.

E então, uma nova lista se cria: a dos desafios.

Desafio n° 1 - Descobrir por quanto tempo posso desviar meu pensamento dos atos de fala.

domingo, 8 de agosto de 2010

Joaquim



A chegada do Joaca


Câncer é um signo do elemento água e tem a Lua como "planeta regente".

Eu penso que a história de um canceriano se faz assim:

Entre junho e julho os caranguejos fazem a festa.
Trazem presentes da água, para a gente que está tão enfadado de terra.
Trazem presentes da Lua, para a gente que está tão enfadado de Terra.
Eles caem da Lua diretamente no mar e, então, são resgatados por um caranguejo.
Os caranguejos, decápodas, carregam então, para fora da água, os pequenos recém-nascidos.
E os entregam a mães e pais que aqui esperam, com a seguinte mensagem:

"Por um mundo mais sensível: um pequeno canceriano".

Hoje, 08/08, é o primeiro dia dos pais do Joaquim. E do pai do Joaquim, como pai.
E amanhã ele completa seu primeiro mês de vida.
Já é um pequeno experiente.

Estamos felizes com esse novo canceriano no mundo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Você viu?

Um sonho por aí, sem você dentro?
Eu vi. E não gostei.
Tem essa vida paralela, em que todos os dias você me recebe com um sorriso no rosto.
Faz algum tempo, porém, que você não vem.
E sinto,..., de longe eu sinto: faz tempo que não vou até você também.
Cadê eu no seu sonho?
Por que nunca mais entramos em contato? Ainda que onírico...........

Onde você se escondeu?

Quem pode me dizer?

Morfeu?


Publicado em: 17 de julho, 2010. Correio Braziliense.

Mais? #versificados

Participe!


sexta-feira, 9 de julho de 2010

Infalível.

É sempre assim:

apagamos as luzes e
ela começa a puxar o colchão,
por debaixo da cama,
afiando as unhas,
achando que não será detectada...
A gente ri.
E eu falo: tira ela do quarto?
Ele tira.

E a noite se deita com a gente.
E enfim se apagam as estrelas.

Tem início meu pesadelo.

Se ao meu lado um paiol se apaga,
e ao lado um isqueiro tenho,
que me falta?

Se perto do paiol, em frente ao isqueiro,
uma taça de vinho vazia,
e uma garrafa cheia ao lado da taça,
que me falta?

Se da cama eu alcanço o som,
o cd terminou,
mas tenho outros três engavetados de próximo, cheios de músicas tão boas,
o que me falta?

Se são 3:00 da manhã e quando sinto vontade de você,
te tenho dormindo aqui ao lado,
sei que posso te acordar a qualquer hora,
que você me receberá sorrindo,
o que me falta?

Se sei que de manhã, ao acordar,
tomaremos um café preto na padaria,
que o pão de queijo estará quentinho e
que o Sol vai nos receber sorrindo,
porque ele sempre ri em julho.e
sei que vou poder percorrer o dia lentamente,
demorando uma hora em cada segundo,
como quem está de férias,
porque de férias estou,
o que me falta?

Se na hora do almoço, amanhã,
nos falaremos e,
serão apenas alguns grunhidos de gracinha para dizer que gosta,
e ouvir de volta que é gostada em dobro,
numa harmonia quase musical,
o que me falta?

Se a tarde é toda minha,
porque a ganhei de presente, de graça,
e compartilharei com as águas do lago,
olhando ao longe a terra vermelha,
comendo uma maçã fuji perfeitinha, que não tem nenhum amassado [eca!],
o que me falta?

Se de noite, amanhã,
marcamos uma cerveja e
sei que elas estarão lá, infalíveis,
para comemorar as férias comigo,
porque é assim que elas são, infalíveis, as minhas amigas,
o que me falta?

Se sei que em poucos dias voo, sem acento, com assento,
para longe de aqui,
e se viajar é o que eu mais gosto de fazer na vida,
e os amigos me esperam,
e o Rio de Janeiro continua lindo,
e vou poder desenhar São Paulo,
o que me falta?

...a  falta de faltar algo,
porque parece que é na falta que eu me preencho.

Hoje ela me disse que eu não posso viver em uma bolha  flutuante olhando para o espelho.


Na hora só achei poético. Mas aí lembrei que ela é lacaniana.

Histeria?
Sintoma?
Estrutura?

Essa vida me dá vontade de dormir, para alcançar outras;
Dessa vida em que tudo está em ordem,
não me sobra nada.
Nem falta.
Tudo ok.
Quem sabe no dormindo o sonhando me tire do lugar.
E no acordado tudo continue assim por meses, meses que eu espero que durem anos.
Já que tá tudo bem.

sábado, 3 de julho de 2010

Da inutilidade de um amor qualquer.

Quase 2 da manhã.
Estar acordada com tanto sono já rendeu mais poesia.
Dentro da minha obsessão por listas, eu listo em pensamento o que quero pensar.
Mas pensar enjoa. Perdeu a graça.
Não consigo me concentrar mais em pensar você.

Olho alguma coisa de fisionomia sua que restou em JPEG.
Ouço um fóssil ainda meio fora do tom, em formato MP3, balbuciando letras que esqueceram o que tinham para me dizer.
E já não sai nada.

Esse amor já não dá mais poesia.

Tento pensar em você, mas me pego pensando que amanhã é domingo. Que haverá Sol. E que o julho de Brasília sempre abraça o Sol durante a tarde.
Penso que amanhã é domingo e eu combinei um café pra depois das 19:00. E um cinema.
Penso que amanhã é domingo e depois do cinema vai rolar uma cerveja e um misto árabe frio. Vou trocar o kibe cru por mais coalhada, e isso me concentra mais do que pensar em você.
Penso que amanhã é domingo e que nessa madrugada de sábado, meio ébria, tento resgatar a poesia que meu amor por você costumava render. Mas...esse amor, bem...esse amor, que me doía nas tardes solitárias de domingo, já não amanhece mais em mim aos domingos. Ele sequer tem força pra dormir em mim aos sábados.

Esse elástico, do qual são feitos os amores, é bem resistente.
Estica um bucado.
Você pode puxar - um pouco, médio, um pouco mais, muito, muito mais, e só.
Se puxar demais arrebenta.
Mas eu, a essa altura do campeonato, tento, em vão, esticar esse amor.
Mas ele já é um fragmento.

E eu continuo querendo te fazer importante agora.
Te fazer me fazer dizer importâncias.
Te importar para mim.
Mas acabo não me importando o suficiente.

Me sinto uma boba por deixar que você não me sirva sequer como matéria para poesia.
Onde foi que eu perdi o fio da meada?

Esse amor virou inútil.

Não que a inutidade seja menos bela, ou convidativa.
Mas poucos são aqueles que sabem manoelizar.
Inutilidades são delicadas, e só viram poesias quando cuidadosamente trabalhadas.
..se o meu amor por você tivesse epígrafe...evocaria Manoel de Barros, e diria:

" Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil."

Mas aí me lembro que foi ele quem disse que "poesia é a virtude de ser inútil". E se esse amor não me dá mais poesia, nem inútil mais ele é.

E agora?

sábado, 19 de junho de 2010

Sobre moluscos I


Não há terapeuta ou analista que dê jeito.

Dura demais por fora, frágil demais por dentro.
E sua maneira altamente dispendiosa de lidar com os incômodos.
Proteção demais contra o que parece ser o mundo, evitando deixar a mostra a qualquer um seu interior frágil, delicado, sensível.
Proteção cara; muita matéria e muita energia devotadas ao trabalho de enconchar-se rigidamente.
Para cuidar de sua organização interna resguarda-se de maneira quase hermética. E funciona sempre assim. Seus problemas não são devolvidos ao meio. Não são regorgitados ao público. Não adquirem formato poético, ou musical.
São todos trabalhados cuidadosamente em seu interior.

E não é pra menos.
A organização interna nossa de cada dia é coisa que se deve cuidar direito. E, para ela, os livros de auto-ajuda são deliciosamente desnecessários.
Sem essa de expurgar os demônios, ou de gastar rios de dinheiros em sessões de falatório.
Parece que nasceu sabendo que os incômodos são sempre internos. E que o outro existe mediante e em continuidade com o "eu'. Que o outro, ela constoi - enquanto constroi a si mesma. Esse outro ela só pode apreender quando ele está exatamente em seu interior. Então o incômodo com o outro só pode ser, em última instância, um incômodo consigo mesma.

Foi sem notar que aprendeu, ao longo de toda a sua onto-filo-genia, a guardar um incômodo sem transformá-lo em câncer. E aqueles que sugerem que os problemas devam ser deixados de lado a reprovariam na certa. Ela não deixa incômodos de lado. Cada um deles é irremediavelmente transformado em pérola.

Está, entretanto, em alerta permanente: há o eterno grande risco de que surja, de algum lugar, um alguém em busca de problemas alheios. Esses sempre vêm. E violentamente destruirão toda a sua rígida armadura proterora, em busca de seus incômodos perolados. Nobres incômodos. Então, seu interior, mole, não poderá mais contornar futuros incômodos. Se der sorte, seu esqueleto rígido restará misturado à areia, e talvez seja devolvido à praia por uma maré de sorte. Sobre as areias da praia encantarão crianças. E alguns adultos. E casais de namorados, que coletam conchinhas procurando dar vazão a tanto gostar.


Fatos da vida cotidiana, nada mais.

O que aprender com moluscos:

I. Fabricar a dureza, de dentro pra fora.
    Casca dura, miolo mole.
    Esse ensinamento fica para a vida toda.
    Como podemos construir uma casca dura? Uma concha? E continuar moles por dentro?
[Hay que endurecer, pero sin perder la ternura!]

II. Confeccionar pérolas a partir de alguns invasivos incômodos.
Como tornar cada um de nossos incômodos tão 'nobres'?.

III. Carregar em si o que chama lar.
Como carregar nas costas a própria casa, casa-concha,limite do ser, que protege, porém distancia.

Casa-caixa.

IV. A tranquilidade de caracolar vagarosamente por entre o destino.

V. Há que se conchar.

1) Eu concho.
2) Tu conchas.
3) Ele concha. Ela também.
4) Caracol concha.
5) Ostra concha.
6) Pensamento concha?

Incômodo de ostra
não vira lupo, nem câncer
vira pérola

Problema de ostra
pequeno grão de areia
que o manto encobre

Caiu um grãozinho:
na ostra uma pérola,
na menina um brinco.

Conchinhas na areia
pérolas no cordão
morreu o bichinho.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

12 de junho - Versificados




Os classificados do jornal são geniais.

Nos classificados dos jornais é onde estão as pessoas. A "gente". 
Tem itens pro vovô, pra vovó, pro papai, pra mamãe, pro nenê.
Tem itens pra quem não tem família também.
Tem itens pra quem acredita que a família tradicional é uma instituição social falida
Até pro animal de estimação tem oferta.

Tem de tudo.

Tem emprego rolando.
Desempregado procurando.
Cursos de capacitação em tudo o que há.
Tem tudo quanto é coisa pra vender: animais de todos os tipos, instrumentos musicais, carros de todas as categorias possíveis, preços e idades.
Tem declaração de amor. Tem convite para sexo.
Tem aviso de demissão para quem teve coragem de nunca mais voltar no emprego.
Tem anúncio de números de cheques e documentos perdidos. E os números daqueles que felizmente foram encontrados [mas que o dono talvez nunca descubra porque não lê os classificados].
Tem imóveis e móveis. E até pacote de turismo.
Tem coleções de selo e moedas. Brinquedos. Aparelhos eletrônicos de todos os tipos, por todos os preços.
Tem sessão de recados - a mais genial de todas! -, onde você pode literalmente mandar um recado, um 'eu te amo', um pedido de casamento, ou um 'vai a merda'. Tem gente que pede uma ajudinha.

No jornal, penso, o caderno dos classificados é quase democrático.
Mas somente quase.
Quase porque para ter seus interesses classificados em uma daquelas categorias você tem que pagar caro. Em reais mesmo.
Mas ainda assim, é o único espaço do jornal "de grande circulação" em que qualquer um pode pagar pra ver, se puder pagar.

Essa é a ideia do #versificados, eu acho.

Vamos pagar pra ter mais um espaço para ler as coisas que a gente gosta. Pra de repente, sentado na sala de espera do dentista, ou na hora do café no escritório, gostar ainda mais dos classificados - a sessão mais genial do jornal.

Foram nove #versificados neste último sábado no Correio Braziliense. Fora todos os ue apareceram no Correio do Povo (POA), na Folha (SP, no O Dia (RJ), no Estado de minas (MG) e no A Tarde (BA).
Outras informações clique aqui #versificados .

sexta-feira, 11 de junho de 2010

#versificados

Dia 12/06, nos classificados do Correio Braziliense (DF), Correio do Povo (POA), jornal O Dia (RJ), novas intervenções.

Entre no blog para conhecer melhor a ideia.


Enquanto seu sábado não vem...uma brincadeira no twitter.





sábado, 29 de maio de 2010

"Não sentes também o perigo na gargalhada do mar?"

Daí ontem ele disse que a vida é pra ser vivida destemidamente.
Que a ideia é se jogar tanto na alegria quanto na tristeza,
sem medo de amanhã.
Que o futuro é o nosso melhor amigo.

Eu entendi e até achei bonito.

Daí eu respondi que a minha ideia de como encarar a vida tangencia minha relação com o mar.

Eu tenho receio do mar.
E amo o mar, também.
Tenho medo.
E me jogo no mar.
Me jogo, mas com respeito.
Deixo que as ondas me atravessem,
sem deixar de atravessar cada uma delas.
De vez em quando ele me sacode.
Aí sinto que eu estou nele. E que ele está em mim igual.

Eu respeito o mar, os peixes, as águas, dona Iaíá.
Assim como respeito essa tal ideia de alegria e felicidade.
Que não tem hora pra chegar ou sair.
Que é imanente e platônica.
Que não passa de ideia.
Que é objetivo comum.
Que me causa receio.
Que é capaz de diluir o sal.
Assim como a água do mar.

Eu disse que o respeito ao mar está na minha cosmologia.
Ele disse que se desprendeu de cosmologias.

domingo, 23 de maio de 2010

Mania de organização I

[Clique na imagem para vê-la em tamanho maior e conseguir ler.]

Listas e diagramas.
Calendários e tabelas.

Assim se organiza o dia-a-dia, as férias, as músicas, os livros e os amores de quem sofre da minha disfunção: obsessão por organizar a vida.

Isso deve ser fruto da minha "natural" desorganização mental, emocional, estrutural;

Hoje me vi sem conseguir organizar o pensamento de futuro. E aí me lembrei de uma estrutura para organizar as aprendizagens e colocá-las em ação. Eu aprendi isso no PDC de 2008. Nunca joguei fora.

Para o domingo era o que eu precisava.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Eu + Eles

1.

Quando eu falei pra ele que sou uma fraude, ele me retrucou que não, que sou apenas complexa.
E quando eu me defino como difusa e confusa, ele me diz que quero ter controle demais sobre mim.
Quando eu falei sobre as ideias dos outros, ele me chamou de dicotômica.
Se me penso contraditória, ele fala em redes, conexões, multiplicidades.
E se me penso múltipla, ele me chama de única.
Como são confusas essas versões que a gente inventa pro querer, e que o querer inventa pra gente.

2.

Um dia tinha tanta coisa entre a gente, que a janela do meu quarto embaçou.
Como pode, se a janela do meu quarto vai de parede a parede?
Mas embaçou.
E o que tinha entre a gente era tão imaterial quanto o que descreve o amor.
E existe ainda hoje.

3.

Se existe alguma explicação para isso, eu não a quero.
Depois de explicado, acaba.
Nenhum amor pode ser explicado. Podem, no máximo, ser intuídos, penso eu.
Mas lá do fundo da minha contraditoriedade eu penso: alguém me explica o que acontece no meio do meu eixo quando ele me abraça?
Meu eixo torce.

4.

E não consigo evitar dizer: gosto muito de você, sabia?
Mas eu falo com uma voz baixa e com pouca entonação. Pouca variação.
Assim, quem sabe, ele releve.
É que toda vez eu falo a mesma coisa.
sou repetitiva.
Mas quando eu me anuncio repetitiva, ele não deixa.
Diz que são as letras que se juntam de maneira equivalente, mas que cada vez é sempre cada vez.

5.

Eu falo que o futuro me dá medo.
Que não quero, e já faz tempo. Não quero nada com cara de amanhã.
E ele me diz que não precisa amanhã.
Assim como não precisa não ter amanhã.
E que o amanhã nem precisa de cara.
E assim me extrai um sorriso, e não consigo não puxá-lo pelo queixo.
O beijo parece poder conversar o dobro do que as palavras parecem poder fazer.

6.

Hoje ele me disse que eu só faço o que quero.
Perguntei se ele me acha egoísta. Ele disse que não.
Se me acha egocêntrica. Ele disse que não.
Se eu sou voluntariosa. E mais uma vez, não.
Aí eu pensei que para contar algumas histórias frequentemente nos faltam mesmo palavras.
E sinto vontade de debandar de uma vez por todas do mundo da razão.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Das propriedades da água

Quando puder lavar a alma como se lava um apartamento
e deixar na água tudo o que pesa,
flutuará no espaço.
[recomenda-se, para tanto, água do mar.]


Dentro d`água
desova de pesares
entre marés

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sobre pedaços e tamanhos de gente II

Uma vez eu parei de caber em você.

Eu não sei se eu cresci demais,
ou se você que diminuiu.
Ou se só diminuiu eu dentro de você.
Diminuir até que não é ruim, não.

Às vezes, ruim mesmo é engrandecer.

Será que eu engrandeci dentro de você?
E foi bem quando eu parei de caber em você
que eu comecei a apequenar.
E fui aprendendo aos poucos a pequenice que é ser grande.

Quanto maior eu fico, fico mais pequena.

Hoje em dia é comum dizer que menos é mais.
Será que mais, é menos?

Será que um dia, de tão grande, eu vou desaparecer?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Síndromes de polinização

Onirofilia invertida


Dá-se às síndromes de polinização os seguintes nomes:

- Entomofilia: polinização por insetos; para generalizações.
- Anemofilia: polinização pelo vento.
- Ornitofilia: polinização por aves.
- Hidrofilia: polinização pela água.
- Cantarofilia: plinização por besouros.
- Psicofilia: polinização por borboletas.
- Falenofilia: polinização por mariposas
- Melitofilia: polinização por abelhas e vespas
- Miiofilia: polinização por moscas

O peso do grão de pólen garante, à abelha, a próxima flor. [ainda que ela não viva o tempo necessário para beijá-la]. Depois da polinização vem a fecundação.
E nas potencialidades do pólen, quem sabe flores, quem sabe bem-me-queres, quem saber mal-quereres, "o doce e o amargo da fruta". E quem sabe hibridizações e novas ploidias. Novas configurações. Novos bem-quereres, mal-quereres, doces e amargos.
Gosto do híbrido, que não tem nome científico. E do torto.

[Quanto espaço há nesse mundo para amores meio tortos?]

Eu gosto de ser polinizada. E de ser pólen.
Eu gosto da fecundação cruzada, mais que da autofecundação. Gosto da inter-polinização.

"Quantos mal-me-quer podem caber em uma única flor?"




sábado, 3 de abril de 2010

O que houve?

Não foi o excesso
- de vinho, de amor, de sexo, de fala.

Não foi a escassez
- de vinho, de amor, de sexo, de fala.

Que mania essa nossa de procurar o que foi.
Nada foi, senão é [se não é].

É o vinho, é o amor, é o sexo, é esse tanto de fala.
Tudo no presente e com implicação autoral.

Sem nada que seja dado pelo outro
- pelo vinho, pelo amor, pelo sexo, pela fala.

Mas será que seria,
- sem vinho, sem amor, sem sexo, sem fala?

O que será que seria se não fosse o que foi?

Para questões como essas, não há resposta.
- Há vinho, há amor e há sexo. Há fala.

E quando o vinho acabar, o amor acabar e o sexo acabar, sem algo a falar
pediremos novos vinhos, novos amores, novos sexos. Mais falas.

É assim, o fluxo inexorável da vida.
Principalmente depois que inventaram o salário, a pílula anticoncepcional, o divórcio, o amor livre, o viagra e a psicanálise.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Só posso agradecer!

Idos de 1985, quando morávamos na Casa.

As águas de março que fecharam o verão de 1984 me trouxeram uma irmã.
Eu tinha exatamente 1 ano, 1 mês e uma semana.
Me contaram que quando ela chegou em casa, bem miudinha, a primeira coisa que eu fiz foi aplicar-lhe um beliscão.
Meu pai diz que era ciúmes. Pode ser que tenha sido. Tem certas coisas que não dá pra explicar a uma pequena primogênita. Eu tinha muito pouco tempo a mais nesse mundo.
O fato é que eu certamente não imaginava o que estava por trás de uma caçula.
Eu tenho uma irmã pequena, de 26 anos de idade.
E já nem sei mais me significar sem.
Há 26 anos meus pais me deram a Bebel de presente.
E foi assim que eu conheci a fidelidade.
Bebel é fiel. Fiel de verdade.
E eu daria o mundo por ela.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Pelas barbas de Platão!

Já são quase dois anos de análise para tentar aceitar que o mundo das ideias, que tanto me fascina, deve ser descartado. Já andei por vários tópicos diferentes, mas a cada sessão, independentemente do tema, eu me descubro vivendo pendurada nas barbas de Platão.

Mas o que eu faço com a não-ideia, depois que deixar a ideia de lado? O que eu faço com a desideia?

Fico com medo do que existe, se é que existe, para além da ideia.

Qual a cor, a forma, o cheiro e o gosto?

Tenho medo de que desidealizar seja desmundar.

Final da noite
quase alcanço a ideia
o despertador toca

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ainda sobre garotas e peixes.

Percebi hoje que eu perdi um sem número de pensamentos tristes.
Eles eram tristes, mas me inspiravam.
Hoje, sem eles, fico despalavreada.

Continuo peixando, como bem sei fazer.
Mas não em um aquário.
O mundo de hoje é líquido demais. Peixar tá cada dia mais fácil. Nem é preciso recipiente específico.
Peixar por aí é lema de vida.
Mas há que se ter em mente o seguinte: sempre se deve peixar a fuga do aquário, pois por maior que seja o aquário, ele sempre será um aquário.    


"As pessoas creem perseguir as estrelas e acabam como peixes-vermelhos num aquário"

quinta-feira, 11 de março de 2010

O lado de lá de cada um

Fungos e bactérias são seres decompositores.
Eu tenho que ensinar isso de vez em quando. Pelo menos uma vez por ano em alguma série.

E eu digo: "imaginem se não existisse o processo de decomposição, teríamos que conviver com todos os cadáveres de todos os seres vivos que já existiram no planeta Terra."

E ele me pergunta, em seus 10 anos de idade: "Professora, por que quando as pessoas morrem e vão se decompor as pessoas choram?".

E depois eu dou essa aula novamente em outra turma. E as crianças divergem de mim. Não acreditam que os ossos também sofrem o processo de decomposição.
Mas eu ensino que sim, que demora muito mais, mas que os ossos também se decompõem.

E ele, em seus 11 anos, em alto e bom som: "Essa hora meu pai já foi todo decomposto então, ele morreu já tem uns 4 anos. Deve ter sobrado só osso."

Eu fico sofrida quando escuto essas coisas. E passo por elas pensando: sabe-se lá como é o lado de lá do meu aluno. E volto a pensar sobre a morte. E sobre os pavores que a morte provoca.

Nota mental de 10.03: aula de ciências = nó na garganta.

Por muito tempo eu estive convencida de que achava triste o viver. E eu sequer tinha duas décadas de nascida quando confrontei pela primeira vez esse torpor. Achava que era a vida que era triste.

Mas não. A vida nunca foi triste.

O viver, esse de passar entrecortando a vida que já está aí há tanto, esse viver, que não é perene, esse sim. Este pode ser triste. E por muito tempo foi ele quem me causou tantas náuseas.

Atribuía, precocemente, meu desconforto de viver à ausência de sentido que achava que a vida deveria ter.
E ouvia de meu pai que passarinho algum procura sentido em viver, mas todos vivem. Voam e cantam. Comem e dormem. Nessa época, tão remota, não havia compreendido ainda a grandeza dos pássaros.

Não faz muito que percebi que a vida é muito maior que a minha existência,  e que mesmo assim, isso não diminui o sentido do meu viver. Estou a cruzar o caminho da vida há vinte e poucos anos. Pouco o suficiente para aceitar pacificamente o despropósito da vida. O acaso, a contingência.

Não é desconfortável pensar dessa forma, e tenho sempre que me policiar para lembrar que as dificuldades e o peso da vida também não são dela própria, senão meus. Afinal, a vida, depois que eu terminar de passar por ela, vai ser a mesma. Ela simplesmente acontece.

Outro dia eu conheci uma plenitude bonita. Era sol e tinha um lago. Pensei em tudo que fiz e venho fazendo. E nos planos que ainda me faltam fazer. E nos que eu já fiz e estou esperando não-concretizar para sobrar espaço para fazer mais. E nos que eu quero concretizar de verdade ainda.

E aí tive o prazer de conhecer o medo de morrer.

Nada disso extingue a minha melancolia.
Ele insiste em dizer pelo telefone que minha voz é triste.
E outrora já me falaram que embora doce, meu semblante é tristonho.
Mas não.  Não é tristeza.

Minha voz não é triste.
Meu semblante não é tristonho.
É o meu jeito de perceber a vida que me pinta de um jeito que para alguns remete à tristeza...mas que em última instância é só uma humildade perante o resto, que é o todo, porque o resto, do todo que eu inventei, sou eu.

Me lembrei de quando li o Borges dizendo que a angústia de morrer é saber que a vida vai continuar sem você. Do ponto de vista filosófico, talvez isso seja uma ignorância. Mas do ponto de vista da minha intuição, é isso. A vida, desde que se iniciou, sempre continuou.Vai continuar sem mim. O chato é que parece que ela não nos dá tempo de fazer quase nada.

Pensar isso tudo me faz ter saudade de mim.

E penso em Mersault, quando Camus o fez ter medo da morte pela certeza que a ele ela traria, a certeza de que sua vida foi consumida sem ele. Me remeto a Mersault e tenho medo. E aí antes de dormir, procedo ao ritual que adotei mais recentemente: ter a certeza de que venho consumindo doses exageradas de um viver propriamente meu, todos os dias.

"Know that one day I must die/ I'm alive..."

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

De pequena II

“Vi uma nuvem pequena/coitada da minhoca/acho que ela não viu”


Quando a gente é pequena, não importa o resto: não precisa usar camiseta. E pode andar descalço por aí.

O quintal de casa parece o mundo. O resto, que não fica dentro, é só um apêndice que inventaram pra ocupar o tempo do nosso brincar.

Quando a gente é pequena, pouco importa se está desproporcional: a camiseta do pai é uma grande e confortável camisola de dormir.

Eu não sei como é hoje em dia.
Ou como era nesses mesmos dias em outras famílias.
Mas na minha era assim.

A gente brinacava no quintal, que tinha mais de 20 mil metros quadrados.
E corria sem camiseta. E sem frescura.
Se sujava de manga, pulava na piscina, subia em todas as árvores possíveis.
E ninguém reclamava.
E isso não foi há 50 anos atrás.
Foi há menos de 20, aliás.

Quando eu era pequena não ganhava brinquedos eletrônicos. Eu queria um "Walk machine" e um vídeo game. Mas meu pai dizia que os brinquedos eletrônicos brincavam pela gente.
E no lugar eu ganhava bicicletas, patins e um parquinho inteiro do lado de fora de casa.

Em pequena, no meio da manhã, tinha um encontro marcado com o suco de salada.
E nas manhãs de Sol eu nem queria dar bom dia para a nave da xuxa, porque sempre tinha muita coisa me esperando lá fora.
E passava o dia a correr com os pés descalços.

Outro dia ela me disse assim: "o seu pé é muito grosso, como é que o seu namorado faz carinho no teu pé?"

É que meu pé é rural mesmo. Ele recebeu, por anos e anos, carinho da grama, da terra e do cascalho. Esse carinho agora é uma tatuagem. Quem passa a mão no meu pé reconhece sinestesicamente, mesmo sem conhecer, a minha infância feliz.

Hoje eu senti saudade da casa.
Mas não deve ser por acaso que sem C, casa é asa.
Por um lado é bom que a casa tenha voado.
Virou cenário em memória doce.
Parafuso de saudade.



No fundo do pomar
carambolas e mangas
férias de verão

Tarde de Sol
nuvenzinha come doce
dia de obrigação

Explosão de amor
quando chega novembro
a piscina é dos sapos

Manga coquinho,
tesouro do dia:
só o vizinho tem

De pequena.


Algumas coisas são desde pequena.

Hoje um aluno me disse que desde pequeno ele gosta de aviões. E ele tem 11 anos.
Eu tenho bem mais que isso. Mais que o dobro disso, na verdade.
E também tenho o meu desde pequena.
E pensava sobre isso esses dias, já que venho completando aí minha 27ª revolução solar.

Desde pequena gostava de bichos.
Mas muito pouco dos bichos domésticos. E assutei meu homeopata, o doutor jaquinho, quando ele me perguntou: você gosta de animais?
"Gosto muito!"
"E qual o animal que você mais gosta?"
"Gosto de insetos e baleias"

Ele não encontrou no guia de homeopatia esse sintoma.

Mas sempre foi assim.
Quando eu assisti "Orca, a baleia assassina" eu não tinha mais que 9 anos.  É um filme da década de 70. Eu chorei muito. É que no filme um cara mata uma orca fêmea e ela aborta um filhote que está esperando. Passei o filme todo torcendo para a orca macho destruir a embaração e matar todos os tripulantes que mataram a orca fêmea.
Eu não tinha 6 anos de idade quando ganhei do meu pai uma gaiola de periquitos. E eram periquitos, segundo meu pai, de muitas cores. No primeiro instante em que tive a gaiola ao alcance das mãos e distante dos olhos de meu pai, não tive dúvidas. Soltei os bichinhos.
Mas não tive tanta solidariedade interespecífica quando a professora Liana, da 6 série, nos pediu como trabalho para o 4 bimestre uma coleção de insetos. Eu passaria dias e dias no meio do mato coletando insetos. Nessa época o Park Way ficava no meio do mato...literalmente. Não esqueço quando as antenas da borboleta azul (que hoje sei que anda em processo de extinção) caíram. Tratei de colocar no lugar dois fiabos de piaçava, que tirei de uma vassoura. É que a professora disse que os insetos tinham que estar inteiros...
Tive também uma coleção de lesmas, que eu tentava manter em uma caixa de sapatos e alimentar com alfaces. E gostava de capturar os girinos da piscina, que meu pai não mandava limpar na chuva e virava local de reprodução de anfíbios. Uma vez coloquei os girinos pra nadar na pia da churrasqueira, que enfeitei com pedras e flores. Tampei o ralo com pedrinhas menores. Não sei quem foi que abriu o ralo, mas sei que algum tempo depois a pia da churrasqueira estava entupida. Quando meu pai mandou ver o que era, eram pequenos sapinhos mortos.
E ainda me lembro de quando, na escola, enlaçava linha de costura em cigarras vivas, na expectativa de brincar de pipa. Ou quando estabelecíamos, minha irmã e eu, uma competição para ver quem catava mais tatuís na praia de Saquarema.
Quando me ofereceram, na AABB, uma vara de pescar e isca, sofri. Não acreditava que meus amigos eram capazes de pescar os bichinhos, vê-los feridos debatendo-se na vara, e depois, como se nada tivesse acontecido, devolvê-los ao Lago.
E mesmo que tenha memórias mais trágicas sobre alguns bichos de infância [quando eu e minha irmã fomos atacadas por marimbondos na piscina, ou quando me "queimei" em uma taturana e tive febre!], eu hoje percebo que foi sempre assim desde pequena. Desde pequena eu gosto de bichos.

Hoje, na aula da noite, uma andorinha entrou na sala. Estranho andorinha tão ativa à noite.
E ela voou várias vezes. E a aula parava todas as vezes que isso acontecia.
Algumas pessoas se assustavam com o voo da andorinha.
E eu me assustei com quem se assusta com o voo de um passarinho.

Tem coisas que são nossas de pequena.

Tem gente que de pequena gosta de carros.
Tem gente que de pequena gosta de planetas.
Tem gente que de pequena gosta de números.
Tem gente que de pequena gosta de gente.

Ainda bem que tem gente de todo tipo. E todo tipo de gente nessa vida.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A vida tá pra peixe!


Fevereiro é mês de Iemanjá.
O mar tá pra peixe, e eles chovem em mim.
A vida tá ficando cheinha deles. E eu cada vez mais Mar.
Marina: aquela que vem do mar, no latim.
No horóscopo, meu Sol tem formato de peixe também [ainda que recém saído do aquário].
Os peixes invadem o meu sono. Meus sonhos. Meu dia-a-dia.
E multiplicam-se.
Não por milagre divino, ou algo parecido.
Eles multiplicam-se em mim
Só me resta abraçar a água, me enxarcar em mar.
E torcer para que as próximas chuvas tragam mais peixes!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Das coisas que o youtube pode fazer por você.

Entre tantos tutoriais do youtube, achei alguns sobre trico.
E lá fui eu aprender.
Achei muito bonito o fazer trico, do verbo tricotar.
No sentido restrito do termo.
A linha passando de uma agulha a outra, enrolando, puxando, e fazendo uma malha.

E tem tantos pontos de trico.
E tem tantas cores de lã no mercado.
E tantos formatos possíveis de fazer o trico.
E tanta coisa pra se fazer [..de meia a roupa para árvore].

E aí pensei na vida como malha de trico.

Tricotando as pessoas.
As ideias.
Os trabalhos.
Os amores.
E passando de um lado ao outro da agulha, amarrando, puxando, esticando.
Virando malha.

Às vezes a gente erra o ponto no trico. Fica um buraquinho delator na malha.
A Tahiná disse que o buraco no paninho de trico é bacana, porque reflete a humanidade que há no tricotar...já que errar é humano.

E no trico da vida é assim também. Às vezes também erramos o ponto....e deixamos buraquinhos na malha.

Alguns buracos a gente volta pra arrumar porque tá no início da carreirinha de linha.
Outros a gente só percebe quando já encompridou demais o paninho. Dá preguiça de voltar.
Ou simplesmente não vale a pena, mesmo.
O André então me disse que nos buraquinhos podemos pregar botões, pra disfarçar os erros e dar uma cara descolada pro trabalho.

Na vida também, né? Podemos disfarçar os buraquinhos de várias maneiras.

Passaram a aplicar o termo tricotar pra fazer referência a certos tipos de bate-papos entre pessoas. Geralmente usado pra se referir a conversas entre mulheres.

Achei legal pensar nisso e imaginei que o meu próximo projeto no CEF São José pode envolver trico de lã, trico de conversas e trico de vidas.

Se o projeto anterior foi "Histórias de vida penduradas em cordel", talvez o próximo possa ser: "Vidas em trico: pontos, malhas e buraquinhos".

De repente eu e as alunas conseguimos conversar sobre nossas vidas, e meu projeto do corpo [caso seja aprovado] tenha um pontapé inicial.
Espero que faça sentido.

No mais, mantenho minha admiração pelos tutoriais do youtube. Pelo trico. E agora, mais recentemente, pela vida. E pelas garotas do projeto knitta, que encapam árvores com trico.

Agulhas e linhas
costurando segredos
num cobertor de lã

domingo, 24 de janeiro de 2010

Tirania



Tem alguns sonhos que deixam a gente meio mole.
Daqueles sonhos que nos primeiros momentos do pós-sono deixam moles as mãos, os joelhos e as batatas das pernas.
E quando a gente percebe que era sonho (e não avatar!), a respiração dói e fica difícil. Temos que nos concentrar bem pra não sobrecarregarmos nossos pulmões.
Uma doce melancolia lastreada em algo que não é real nos dá vontade de voltar a sonhar.
E aquele suspiro sem razão de ser, que não quer dizer muito mais do que o que diz, toma conta do nosso "Bom dia".

Sem pedir licença, esses sonhos trazem para o coração o que já quase nem existe na razão.

E eles nunca pedem licença.

Ainda tão pra inventar alguma coisa mais tirânica que os sonhos....


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Concentração em fuga

Às 21:04 em ponto aperto o mosquito que está sobre a mesa contra a capa do meu caderno.

Foi sem querer, eu juro! Jamais escolheira matar um mosquito assim: na minha mesa, com a capa do meu caderno bonito e novo. Meu caderno homenageia o pequeno príncipe, oras! Eu não insultaria o pequeno príncipe por tão pouco....

Mas ele era tão frágil e pequeno que o meu caderno, embora fosse, nem precisava ser de ´capa dura`.

"Morreu", pensei baixinho.

E foi isso.

Ele morreu no auge da minha concentração, levando consigo um pedação dela.

Pensei no epitáfio. "Aqui jaz um mosquito acadêmico".

Fitei os olhos mais uma vez no pequeno cadáver para depois devolvê-los ao texto que estava em minha frente e esboçava um leve ciúme.

Não consegui me desfazer do corpinho do mosquito.
E comecei a alternar: olhos nas letras, olhos no mosquito. Olhos nas letras, olhos no mosquito. Olhos nas letras, olhos no mosquito. Até que, para tristeza do meu companheiro texto, o mosquito esboçou um pequeno movimento.

Meio lento, parecia bêbado. Começou a se arrastar sobre o vasto-mundo-Raimundo, que naquele contexto era só uma mesa verde de biblioteca.

Para mim, era a própria ressurreição do mosquito. Da morte para a vida.

Meu coração ficou dividido.E minha fidelidade infiel não me deixava deixar o texto. Muito menos o pequeno mosquito.

E comecei que olha daqui, lê ali. Lê ali, olha aqui.

...Lakatos, mosquitos. Investigação-ação, mosquito. Habermas, mosquito. Dialética, mosquito. Ciências, mosquito.
E depois...
...Asas, texto. Patinhas, texto. Voar, texto. Vida em miniatura, texto. Fragilidades, texto. Morte, texto.Ressurreição, reencarnação, religião, ideologia, ciência...

Putz, ciências!!

Já são quase 21:40 e eu não mudei de página. E pra piorar: esqueci o que dizia o que eu estava lendo.

Pra piorar de novo: vou precisar esperar a ressurreição da minha concentração...a passos lentos e meio bêbados.



....porque ela é assim...dura não mais que o tempo que tem de fugir de mim. É delicada, como um mosquito de biblioteca. E frequentemente se faz moribunda frente a capa do meu caderno.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Quereres e tempos.


Depois de muito acreditar que o mundo que existe lá fora fui eu quem fiz, comecei a querer deixar essa ideia de lado.

É muita responsabilidade.

Tem coisas que não fui eu quem fiz. Que não fui eu quem quis. Que não sou eu quem diz.
Eu não queria que tanta coisa fosse como é, não. E eu nunca disse que queria.
E por vezes eu nunca sequer disse o que eu queria.
É que eu tenho dificuldade de querer certas coisas.

E os quereres, ah! Já até foram caetanizados.

Eu queria querer um monte de coisa. Mas as coisas que eu quero de verdade são muito simples.

Nesse momento eu só queria que o o tempo parasse junto com o relógio.
Mas só um pouquinho. Só pra eu conseguir respirar sem ver o ponteiro da vida passando.

Foi na Rita Apoena que eu li assim: "o relógio faz volta, mas o tempo, não.".

E é verdade.

E é verdade também que o relógio para. Mas o tempo, diz o refrão, o tempo não para.

O tempo não fica pendurado na parede, no pulso, ou em cordão. 
O tempo....é...aprendi que é relativo. Mas o relógio marca os segundos precisamente de acordo com o que foi estabelecido em alguma convenção desimportante. E a relatividade do tempo ainda não me ensinou a desmanchar essas horas tantas que de nada valem...



O tempo dói em mim hoje, enquanto o relógio dá voltas em minha cabeça.