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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Avoada para Terra



Ada sequer se importava com todo o rebuliço que sua subida causara. Ainda assim, de maneira quase solícita, remeteu um bilhete aos demais, contando algumas de suas descobertas. Desenhou com suas letras mais bonitas as seguintes palavras:


"As asas que encomendei vieram hoje. Elas vieram do mar, voando.
De início, pareciam peixes. E logo lacei alguns para mim, afinal, quem tem laços vai à Lua.
Foi quando notei que, pouco a pouco, os peixes se transformavam em asas de verdade. E depois disso se acoplavam aos respectivos destinatários.
Descobri assim, como quem não quer nada, a origem das asas. Sejam de libélulas, morcegos, formigas ou corujas. Elas vêm da água. São peixes que já não cabem mais em si mesmos e precisam se doar. Eles se enamoram pela resistência do ar e sobem. Esse é o primeiro passo.
A água tem essa coisa de se ajustar aos recipientes em que se encontra. Essa coisa meio mole, que permite o nadar. Desde a escola eu já imaginava que voar e nadar são, na verdade, coisas parecidas.
Pra fazer um par de asas é preciso um par de peixes cansados do nada. Um par de peixes cansados de nadar. É preciso também uma dose de vento, para entrecortar e desfiar cada escama, minimamente. São os ventos os responsáveis pela delicada metamorfose que converte as escamas em delicados fiapos gentilmente chamados de penas, nas aves, ou de veias, nos insetos.
Munidos de escamas esfiapadas, os peixes se emparelham. Sobem em par para se tornarem pares de asas.
E foi assim que ganhei as minhas. Contrariei a tendência ao nado que há em meu primeiro nome. E a tendência ao nada também.
Regida por netuno, com horizonte marcado pela Lua, e a Lua dentro da água com forma de caranguejo, sabia que o nome que me foi dado estava como que pela metade.
E dessa metade eu entendo bem. Ada...metade de palavra que não é ainda adjetivo, tampouco partícipio de verbo. Não me serve mais como nome. Sou definitivamente Avoada, agora. Mas não adjetivo, nem particípio, não. Sou substantivo simples, porém próprio."


Após o bilhete, a última notícia que tiveram de Ada veio para a mãe da menina, em sonho. E não estava assinada. Ada prometera, nessa ocasião, tomar muito cuidado com seus voos sem oriente, e mais ainda com as suas aterrisagens em terrenos desconhecidos. Seu maior pesadelo agora era pousar desavisadamente sobre a cabeça de alguém, e acabar por esmagar, casualmente, um sonho qualquer.

As crianças compreenderam bem. Ada não voltaria mais em sonho, e cuidaria ao máximo para não voltar em pesadelo. Aos poucos, a imagem da menina seria fielmente substituída pelos enlaces da memória de cada um. Essa memória que percebe o que não vê com os sensores do coração. Essa memória que é a mais fiel de todas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

avoADA



Após a leitura do bilhete não remetido, as crianças recordavam momentos ilustres de Ada na escola.


A aula de natação era sempre motivo de risada. Aguardavam ansiosas pelo momento em que Ada se recusaria a entrar n`água.


Ada justificava-se dizendo que, tendo seu Sol regido por Netuno, era como se já tivesse vindo da água. Agora queria aprender novas coisas. Agora, nas práticas escolares de Educação Física, queria aprender avoação.


A professora sempre dizia, enfática: "Nada, Ada! Nada há de mal, nem de mau, em nadar. Em nadar não há nada, há tudo. E você, com esse nome, nem precisa de nadadeiras! Só precisa de um N".


Ada se impacientava com Ns, com nadas, com nados. E já havia decidido desde os primeiros dias na escola, quando frequentemente era chamada de avoada, que não nadaria.


"O que mais uma pessoa avoada pode querer, senão aprender a voar???"


E todas as vezes que precisava se justificar, Ada repetia que seu Sol tinha formato de peixe. E que havia lido por aí que todas as piscianas são assim, avoadas. Queria, então, fazer jus ao que sempre teve que ouvir da própria professora. E estava pronta para voar.


As crianças se lembravam de tudo isso e se sentiam, em parte, responsáveis pela partida de Ada. Recordavam, em tom de remorso, as vezes em que, intolerantemente, diziam em coro: "Então avoa, Ada, para longe daqui!"

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Os segredos de Ada.




Não por acaso as crianças pediram para explorar os pertences mais íntimos deixados por Ada. Pertences bem guardadinhos em caixas de sapato vestidas de chita.


Ada tinha gosto por caixas. Parecia que tudo o que fosse especial em seu mundo poderia ser encaixotado. E parecia, na verdade, que o mundo era mesmo uma grande caixa recheada de caixinhas menores. E menores, e menores, e menores. Como aquelas bonequinhas russas. Em alguma das caixas poderia encaixotar a si mesma. E cada caixa pequena poderia pertencer a uma caixa maior. E assim, nada ficaria sem lugar. E um dia, todos se encontrariam em uma caixa maior.

Talvez Ada tramasse construir o seu mundo particular no interior de caixas. E elas eram várias.


O conteúdo das caixas não poderia ser mais esclarecedor. Sementes aladas: de peroba, de ipê, de guapuruvu. Asas de libélulas e de formigas reprodutoras. Pedrinhas muito redondas. Lápis de cera. Papéis coloridos. Fotografias e recortes de propagandas que não queriam dizer muito mais do que Ada podia entender. Alguns escritos.

Entre as colagens, o gosto de Ada pelo espaço e pelas asas. E o gosto de Ada pela forma como as asas parecem poder tomar os espaços.


Entre os escritos, uma grande saudade que parecia não ter objeto. Uma saudade que parecia se aliar a um querer que, por sua vez, parecia se aliar ao cruel mundo platônico das idéias. E dizia assim:

"Aqui da minha terra, eu sinto saudade de você até a lua.
E quando eu puder voar,no espaço, vou até esse tal satélite natural resgatar o vazio que essa saudade me deixa. Lá na lua, vou sentir saudade de você até a Terra. Mas vou estar flutuando. Vou ter ganhado asas. Aí vou trocar saudades por asas. Vai valer a pena."

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Sobre as surpresas que os peixes nos trazem.



As crianças não sabiam ainda como preparar linha e anzol na vara. Tudo que sabiam sobre a arte da pesca haviam aprendido no último junho, durante a festa. Aprenderam que os peixes não se organizam de maneira aleatória. Que os mais difíceis de capturar são os que trazem as melhores surpresas.

E foi assim. Foi ao constatar a relação entre surpresas e peixes que as crianças alcançaram, com os pés na terra, o coração de Ada.

Agora queriam saber...que surpresa era essa que a menina buscava em seu voo pisciano?

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Quando os peixes se apaixonaram.



Gnosiologia, ontologias, metodologias - Em 5, 7, 5.


O pequeno Aurélio, que havia vindo do alto do morro, bem distante de rios e mares, não quis palpitar. As demais crianças pareciam não entrar em um acordo sobre como investigar a questão.


Aguti gostava da física. E sugeriu uma solução para o problema.


"Esses peixinhos
e a resistência do ar
apaixonaram-se!"


As crianças gostaram, mas ainda não se sentiam contempladas pela resposta de Aguti.


Agnes gostava mais da Biologia, e desconfiou:


"Peixe apaixonado:
espécie não descrita.
Evolução?"


Cibele, que se encantava pelo português, retrucou:

"Metáfora:
até peixes se apaixonam
na língua dos outros."


...e Nina, em seu devaneio matemático, em busca da precisão, indagou:


"Paixão de peixinho:
acrescento ou subtraio
ao peso de Ada?"


Foi quando Ivel, que gostava das aulas de Ciências Sociais, interrompeu:


"Ponto de vista:
Ada pesa o peixe ou
peixe pesa Ada?"


Aurélio, Aguti, Agnes, Cibele, Nina e Ivel já tinham uma nova brincadeira para as tardes descocupadas das férias que se aproximavam:


"Pescaremos vários peixes. Mediremos e pesaremos cada um deles até descobrirmos qual deles é capaz de se apaixonar!"

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Quantos peixes são necessários para levar Ada às nuvens?



No dia em que Ada subiu, ninguém pôde contar quantos peixes foram necessários para conduzir a menina. Estavam todos ocupados demais em suas atividades do dia-a-dia.

Agora, já virou aposta na escola: Quantos peixes foram necessários para levar Ada às nuvens?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A subida de Ada.



No dia em que os peixes subiram aos céus, Ada estava na janela.
Que sorte ter treinado alçar voo em patinhas de cigarra. Não demorou muito e logo prendeu cada um de seus fios nas nadadeiras caudais dos bichinhos.

Sorte dos peixes Ada quase não pesar.Era menina demais para se agarrar ao peso da vida.

Os peixes subiram na mesmo hora em que o sol descia por entre as chapadas. E, do alto, a menina pôde acompanhar o deitar do dia.