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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Solúvel.

Não gosto quando o lençol abandona o colchão.
Odeio dormir no áspero.
A hora de dormir sempre deveria ser macia.

Quando deito em você,
se eterniza o lençol.
Me cubro de você.
Te cubro em mim.

Eu queria morar em você.

Quando te faço de cama e lençol,
me misturo em você e
me espalho de mim.
Nesse movimento, lento,
dissolvo.

Dissolução.

Diz: solução?

Gosto quando eu dissolvo em você.
Quando solucionamos.

E gosto que você me fale sobre o mar
que te dissolve à noite na cama.

Gosto que você seja meu solvente,
quando você me cobre
[como se fosse o maior lençol do mundo].

Gosto quando a gente mistura.
Dilui.
Em solução.

Gosto das soluções saturadas.
Que precipitam.
Que sobram.
Que exageram.

Gosto das precipitações e dos exageros.
Das soluções saturadas.

Soluções saturadas e precipitadas.
Aquelas que, ao final,
se dividem novamente.
Se separam.
Em novas fases.

E soluçam.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sobre o tempo III

Não faz muito que descobri os campos de espaço-tempo curvos.

Em silêncio, reconheço: na verdade, ainda não os descobri.

Que tempo é esse, que me esconde o espaço em que você est(á)(ava)(eve)?
Que dimensão do espaço-tempo escondeu você?
Em que tempo da minha dimensão você se camuflou?
Na dimensão em que você esteve em mim, como me dimensiono no tempo teu?

Quando tempo-espaço seguem juntos, em que lugar-momento está você?
Quantos milésimos de espaço-tempo dura o seu lugar?
Quantos lugares, ao mesmo tempo, você pode ocupar em mim?
De quantos você, em um único tempo, eu posso me ocupar?
Quantos de você tenho em mim?
Que tamanho tenho em você quando me vejo em ti?

Me disseram que o espaço se curva com o tempo. Que isso dilata o tempo.
Que é a relatividade.
E deve ser mesmo relativo.

Por que o tempo nosso não dilatou?
Pareceu tão curto.
Seu espaço, algum dia, vai se curvar sobre o meu tempo?
Tenho medo que a curva do seu espaço sobre o meu tempo me tire do lugar.
O espaço do meu lugar não se curva no infinito com o seu tempo.
O seu tempo curvou o meu espaço no infinito.
O seu infinito tomou espaço demais no tempo meu.
Meu infinito já não cabe mais no seu.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sobre o tempo II

Quando o tempo lá fora conversou com
o meu tempo aqui dentro
choveu.

Uma chuva fina.

Quando o tempo aqui dentro já estava chovendo
e o tempo lá fora se afinava comigo,
ventou.

Um vento frio.

Ventou aqui dentro na chuva lá fora, fria
e choveu aqui fora uma chuva de dentro
em ventania.

Nessa transfusão de tempo,
de dentro pra fora,
de fora pra dentro.

Ele me perguntou:

no meio do vento, ao tempo, você chove ou chora?

No meio do tempo, ao vento, eu apenas molho.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Silêncio.


É que às vezes não queremos dizer nada além do que se diz em silêncio.
É que às vezes o que se diz em silêncio desconforta o Outro.
É que o silêncio conversa com nossos desejos e medos mais profundos.
É que a gente teme pelo que o silêncio pode dizer sobre o que a gente tenta  guardar a sete chaves.
No silêncio desvela-se um mundo de não-palavras barulhentas, de não-barulhos palavrosos.
As palavras, que tanto mascaram, libertam a intimidade recatada, no silêncio.

Quem tem medo do silêncio?


Eu

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

De gota em gota, pinga.

Eis que, de gota-em-gota, pinga, há anos, um amor.
Há anos ele me pinga. Há anos me emaranha e me mareia.
Pinga no mar, meio turvo.
De tanto que há tanto que pinga, aos poucos, os monstros do mar se desfazem.
Nessa linha do horizonte, onde o barco costumava despencar, me vejo percebendo a curva.
Aprendi a decorar os monstros marinhos. Monstrus marinus.
E aos poucos a deixar a maré me embalar.
Sem marear. Só mar. Só ar.

Dos amores que vieram em correntezas fortes, pouco pesquei.
Eu tenho esse amor que me pinga.
E vem brotando do meu mar a cada instante.
Quem sabe os Monstrus marinus, muito em breve, liberem de vez esse amor que vem em ondas.

Quem sabe de tanto viver na água-mar, esse amor aprenda a evaporar.
E depois a chover.
Quem sabe ele me pingue um delicioso rio de água doce.
Em uma chuva bem fininha, livre de sal.

"O amor chove, não chove?"


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Nas vésperas de partir - sempre!

Da "lista de coisas que mais gosto de fazer na vida" tenho viajar como número I.

De personalidade escapista, adoro arrumar as malas.
E fazer planos em papel.

Quando eu falo em viajar sozinha escuto o mesmo "ah, sério? tadinha."
E nunca entendo.

Sinto frio na barriga quando penso no café que vou tomar, sozinha, quando cansar de caminhar, sozinha, por entre as ruas.
E sinto frio na barriga porque sei que todo esse sozinha vem acompanhado de uma enorme companhia de mim.

Eu fico enfadada de tanto "outras pessoas" que carrego no meu cotidiano: durante a semana - "útil - nunca consigo ficar mais que duas horas sozinha e passo pelo menos 10 horas rodeada, sendo visto e pensada, por cerca de 40 pessoas. É assim que é ser professora de escola. E olha que eu gosto.

Nada como, nas férias, passar alguns dias fazendo "nada" aos olhos dos outros.

Algumas pessoas não podem entender o que é ficar feliz estando gripada, olhando a chuva que cai na Paulista, tomando um café com as costas levemente doloridas de tanto caminhar. Estando por cerca de três horas no mais absoluto silêncio.

A ausência da companhia permite a tranquilidade das decisões repentinas e silenciosas, tomadas com naturalidade tal que parece que foram tomadas há séculos. Como aquelas que foram tomadas no mesmo segundo em que meu olhar tocou o letreiro do cine Belas Artes, no meio da Consolação. E foi muito silenciosamente-rápido que decidi e pude entrar no cinema, comprar um espresso e um ingresso. E assistir, sozinha, o filme de 2003.

É isso.

Gosto das decisões tomadas tais quais um gole de café que pedi em um lugar qualquer, simplesmente porque olhei e escolhi, sem saber de nada antes. Sem saber se viria amargo, adoçado, meio frio, meio forte, meio sem graça. Sem prejudicar ninguém. Sem implicar nada em outra pessoa. Só em mim.

No meio do caminhar, do café, do sentar, do entrar e sair de estabelecimentos comerciais, parques e banheiros públicos, desvela-se o que andava escondido no furor da comunicação absurda e extrema que me ronda o dia-a-dia. O silêncio ensurdecedor da Rua Augusta me leva a um espaço que vem se tornando quase desconhecido, mas que eu conheço e reconheço há 27 anos e poucos meses. Gosto do silêncio dos carros, árvores, pessoas e máquinas da rua. Tornam-se trilha sonora pra uma introspecção tão necessária e bonita.

Silêncio na alma, tão abarrotada de barulhos internos, externos, mistos, contíguos.

"Precisa-se de silêncio para ir ao interior"

E quando estou onde estou sem ter aonde ir, sem necessitar dizer, explicar, decidir, torna-se indiferente meu contato físico com o momento. Passo a circular livremente por dentro da minha cabeça. Meus pensamentos alteram minha noção de tempo e se encaixam com o infinito. Surgem novas perspectivas. Desvela-se no silêncio um pouco do que sublimei por meio de tanta fala. A mente à deriva. O que escapa e desvia embaça as imagens e ideias.

Vem surgindo, aos poucos, o desespero.

E a necessidade de voltar a falar.

Um encontro marcado e volto, como sempre, volto a falar. Muito.

E então, uma nova lista se cria: a dos desafios.

Desafio n° 1 - Descobrir por quanto tempo posso desviar meu pensamento dos atos de fala.

sábado, 3 de julho de 2010

Da inutilidade de um amor qualquer.

Quase 2 da manhã.
Estar acordada com tanto sono já rendeu mais poesia.
Dentro da minha obsessão por listas, eu listo em pensamento o que quero pensar.
Mas pensar enjoa. Perdeu a graça.
Não consigo me concentrar mais em pensar você.

Olho alguma coisa de fisionomia sua que restou em JPEG.
Ouço um fóssil ainda meio fora do tom, em formato MP3, balbuciando letras que esqueceram o que tinham para me dizer.
E já não sai nada.

Esse amor já não dá mais poesia.

Tento pensar em você, mas me pego pensando que amanhã é domingo. Que haverá Sol. E que o julho de Brasília sempre abraça o Sol durante a tarde.
Penso que amanhã é domingo e eu combinei um café pra depois das 19:00. E um cinema.
Penso que amanhã é domingo e depois do cinema vai rolar uma cerveja e um misto árabe frio. Vou trocar o kibe cru por mais coalhada, e isso me concentra mais do que pensar em você.
Penso que amanhã é domingo e que nessa madrugada de sábado, meio ébria, tento resgatar a poesia que meu amor por você costumava render. Mas...esse amor, bem...esse amor, que me doía nas tardes solitárias de domingo, já não amanhece mais em mim aos domingos. Ele sequer tem força pra dormir em mim aos sábados.

Esse elástico, do qual são feitos os amores, é bem resistente.
Estica um bucado.
Você pode puxar - um pouco, médio, um pouco mais, muito, muito mais, e só.
Se puxar demais arrebenta.
Mas eu, a essa altura do campeonato, tento, em vão, esticar esse amor.
Mas ele já é um fragmento.

E eu continuo querendo te fazer importante agora.
Te fazer me fazer dizer importâncias.
Te importar para mim.
Mas acabo não me importando o suficiente.

Me sinto uma boba por deixar que você não me sirva sequer como matéria para poesia.
Onde foi que eu perdi o fio da meada?

Esse amor virou inútil.

Não que a inutidade seja menos bela, ou convidativa.
Mas poucos são aqueles que sabem manoelizar.
Inutilidades são delicadas, e só viram poesias quando cuidadosamente trabalhadas.
..se o meu amor por você tivesse epígrafe...evocaria Manoel de Barros, e diria:

" Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil."

Mas aí me lembro que foi ele quem disse que "poesia é a virtude de ser inútil". E se esse amor não me dá mais poesia, nem inútil mais ele é.

E agora?

sábado, 19 de junho de 2010

Sobre moluscos I


Não há terapeuta ou analista que dê jeito.

Dura demais por fora, frágil demais por dentro.
E sua maneira altamente dispendiosa de lidar com os incômodos.
Proteção demais contra o que parece ser o mundo, evitando deixar a mostra a qualquer um seu interior frágil, delicado, sensível.
Proteção cara; muita matéria e muita energia devotadas ao trabalho de enconchar-se rigidamente.
Para cuidar de sua organização interna resguarda-se de maneira quase hermética. E funciona sempre assim. Seus problemas não são devolvidos ao meio. Não são regorgitados ao público. Não adquirem formato poético, ou musical.
São todos trabalhados cuidadosamente em seu interior.

E não é pra menos.
A organização interna nossa de cada dia é coisa que se deve cuidar direito. E, para ela, os livros de auto-ajuda são deliciosamente desnecessários.
Sem essa de expurgar os demônios, ou de gastar rios de dinheiros em sessões de falatório.
Parece que nasceu sabendo que os incômodos são sempre internos. E que o outro existe mediante e em continuidade com o "eu'. Que o outro, ela constoi - enquanto constroi a si mesma. Esse outro ela só pode apreender quando ele está exatamente em seu interior. Então o incômodo com o outro só pode ser, em última instância, um incômodo consigo mesma.

Foi sem notar que aprendeu, ao longo de toda a sua onto-filo-genia, a guardar um incômodo sem transformá-lo em câncer. E aqueles que sugerem que os problemas devam ser deixados de lado a reprovariam na certa. Ela não deixa incômodos de lado. Cada um deles é irremediavelmente transformado em pérola.

Está, entretanto, em alerta permanente: há o eterno grande risco de que surja, de algum lugar, um alguém em busca de problemas alheios. Esses sempre vêm. E violentamente destruirão toda a sua rígida armadura proterora, em busca de seus incômodos perolados. Nobres incômodos. Então, seu interior, mole, não poderá mais contornar futuros incômodos. Se der sorte, seu esqueleto rígido restará misturado à areia, e talvez seja devolvido à praia por uma maré de sorte. Sobre as areias da praia encantarão crianças. E alguns adultos. E casais de namorados, que coletam conchinhas procurando dar vazão a tanto gostar.


Fatos da vida cotidiana, nada mais.

O que aprender com moluscos:

I. Fabricar a dureza, de dentro pra fora.
    Casca dura, miolo mole.
    Esse ensinamento fica para a vida toda.
    Como podemos construir uma casca dura? Uma concha? E continuar moles por dentro?
[Hay que endurecer, pero sin perder la ternura!]

II. Confeccionar pérolas a partir de alguns invasivos incômodos.
Como tornar cada um de nossos incômodos tão 'nobres'?.

III. Carregar em si o que chama lar.
Como carregar nas costas a própria casa, casa-concha,limite do ser, que protege, porém distancia.

Casa-caixa.

IV. A tranquilidade de caracolar vagarosamente por entre o destino.

V. Há que se conchar.

1) Eu concho.
2) Tu conchas.
3) Ele concha. Ela também.
4) Caracol concha.
5) Ostra concha.
6) Pensamento concha?

Incômodo de ostra
não vira lupo, nem câncer
vira pérola

Problema de ostra
pequeno grão de areia
que o manto encobre

Caiu um grãozinho:
na ostra uma pérola,
na menina um brinco.

Conchinhas na areia
pérolas no cordão
morreu o bichinho.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

#versificados

Dia 12/06, nos classificados do Correio Braziliense (DF), Correio do Povo (POA), jornal O Dia (RJ), novas intervenções.

Entre no blog para conhecer melhor a ideia.


Enquanto seu sábado não vem...uma brincadeira no twitter.





sábado, 29 de maio de 2010

"Não sentes também o perigo na gargalhada do mar?"

Daí ontem ele disse que a vida é pra ser vivida destemidamente.
Que a ideia é se jogar tanto na alegria quanto na tristeza,
sem medo de amanhã.
Que o futuro é o nosso melhor amigo.

Eu entendi e até achei bonito.

Daí eu respondi que a minha ideia de como encarar a vida tangencia minha relação com o mar.

Eu tenho receio do mar.
E amo o mar, também.
Tenho medo.
E me jogo no mar.
Me jogo, mas com respeito.
Deixo que as ondas me atravessem,
sem deixar de atravessar cada uma delas.
De vez em quando ele me sacode.
Aí sinto que eu estou nele. E que ele está em mim igual.

Eu respeito o mar, os peixes, as águas, dona Iaíá.
Assim como respeito essa tal ideia de alegria e felicidade.
Que não tem hora pra chegar ou sair.
Que é imanente e platônica.
Que não passa de ideia.
Que é objetivo comum.
Que me causa receio.
Que é capaz de diluir o sal.
Assim como a água do mar.

Eu disse que o respeito ao mar está na minha cosmologia.
Ele disse que se desprendeu de cosmologias.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Eu + Eles

1.

Quando eu falei pra ele que sou uma fraude, ele me retrucou que não, que sou apenas complexa.
E quando eu me defino como difusa e confusa, ele me diz que quero ter controle demais sobre mim.
Quando eu falei sobre as ideias dos outros, ele me chamou de dicotômica.
Se me penso contraditória, ele fala em redes, conexões, multiplicidades.
E se me penso múltipla, ele me chama de única.
Como são confusas essas versões que a gente inventa pro querer, e que o querer inventa pra gente.

2.

Um dia tinha tanta coisa entre a gente, que a janela do meu quarto embaçou.
Como pode, se a janela do meu quarto vai de parede a parede?
Mas embaçou.
E o que tinha entre a gente era tão imaterial quanto o que descreve o amor.
E existe ainda hoje.

3.

Se existe alguma explicação para isso, eu não a quero.
Depois de explicado, acaba.
Nenhum amor pode ser explicado. Podem, no máximo, ser intuídos, penso eu.
Mas lá do fundo da minha contraditoriedade eu penso: alguém me explica o que acontece no meio do meu eixo quando ele me abraça?
Meu eixo torce.

4.

E não consigo evitar dizer: gosto muito de você, sabia?
Mas eu falo com uma voz baixa e com pouca entonação. Pouca variação.
Assim, quem sabe, ele releve.
É que toda vez eu falo a mesma coisa.
sou repetitiva.
Mas quando eu me anuncio repetitiva, ele não deixa.
Diz que são as letras que se juntam de maneira equivalente, mas que cada vez é sempre cada vez.

5.

Eu falo que o futuro me dá medo.
Que não quero, e já faz tempo. Não quero nada com cara de amanhã.
E ele me diz que não precisa amanhã.
Assim como não precisa não ter amanhã.
E que o amanhã nem precisa de cara.
E assim me extrai um sorriso, e não consigo não puxá-lo pelo queixo.
O beijo parece poder conversar o dobro do que as palavras parecem poder fazer.

6.

Hoje ele me disse que eu só faço o que quero.
Perguntei se ele me acha egoísta. Ele disse que não.
Se me acha egocêntrica. Ele disse que não.
Se eu sou voluntariosa. E mais uma vez, não.
Aí eu pensei que para contar algumas histórias frequentemente nos faltam mesmo palavras.
E sinto vontade de debandar de uma vez por todas do mundo da razão.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Das propriedades da água

Quando puder lavar a alma como se lava um apartamento
e deixar na água tudo o que pesa,
flutuará no espaço.
[recomenda-se, para tanto, água do mar.]


Dentro d`água
desova de pesares
entre marés

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sobre pedaços e tamanhos de gente II

Uma vez eu parei de caber em você.

Eu não sei se eu cresci demais,
ou se você que diminuiu.
Ou se só diminuiu eu dentro de você.
Diminuir até que não é ruim, não.

Às vezes, ruim mesmo é engrandecer.

Será que eu engrandeci dentro de você?
E foi bem quando eu parei de caber em você
que eu comecei a apequenar.
E fui aprendendo aos poucos a pequenice que é ser grande.

Quanto maior eu fico, fico mais pequena.

Hoje em dia é comum dizer que menos é mais.
Será que mais, é menos?

Será que um dia, de tão grande, eu vou desaparecer?

sábado, 3 de abril de 2010

O que houve?

Não foi o excesso
- de vinho, de amor, de sexo, de fala.

Não foi a escassez
- de vinho, de amor, de sexo, de fala.

Que mania essa nossa de procurar o que foi.
Nada foi, senão é [se não é].

É o vinho, é o amor, é o sexo, é esse tanto de fala.
Tudo no presente e com implicação autoral.

Sem nada que seja dado pelo outro
- pelo vinho, pelo amor, pelo sexo, pela fala.

Mas será que seria,
- sem vinho, sem amor, sem sexo, sem fala?

O que será que seria se não fosse o que foi?

Para questões como essas, não há resposta.
- Há vinho, há amor e há sexo. Há fala.

E quando o vinho acabar, o amor acabar e o sexo acabar, sem algo a falar
pediremos novos vinhos, novos amores, novos sexos. Mais falas.

É assim, o fluxo inexorável da vida.
Principalmente depois que inventaram o salário, a pílula anticoncepcional, o divórcio, o amor livre, o viagra e a psicanálise.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ainda sobre garotas e peixes.

Percebi hoje que eu perdi um sem número de pensamentos tristes.
Eles eram tristes, mas me inspiravam.
Hoje, sem eles, fico despalavreada.

Continuo peixando, como bem sei fazer.
Mas não em um aquário.
O mundo de hoje é líquido demais. Peixar tá cada dia mais fácil. Nem é preciso recipiente específico.
Peixar por aí é lema de vida.
Mas há que se ter em mente o seguinte: sempre se deve peixar a fuga do aquário, pois por maior que seja o aquário, ele sempre será um aquário.    


"As pessoas creem perseguir as estrelas e acabam como peixes-vermelhos num aquário"

quinta-feira, 11 de março de 2010

O lado de lá de cada um

Fungos e bactérias são seres decompositores.
Eu tenho que ensinar isso de vez em quando. Pelo menos uma vez por ano em alguma série.

E eu digo: "imaginem se não existisse o processo de decomposição, teríamos que conviver com todos os cadáveres de todos os seres vivos que já existiram no planeta Terra."

E ele me pergunta, em seus 10 anos de idade: "Professora, por que quando as pessoas morrem e vão se decompor as pessoas choram?".

E depois eu dou essa aula novamente em outra turma. E as crianças divergem de mim. Não acreditam que os ossos também sofrem o processo de decomposição.
Mas eu ensino que sim, que demora muito mais, mas que os ossos também se decompõem.

E ele, em seus 11 anos, em alto e bom som: "Essa hora meu pai já foi todo decomposto então, ele morreu já tem uns 4 anos. Deve ter sobrado só osso."

Eu fico sofrida quando escuto essas coisas. E passo por elas pensando: sabe-se lá como é o lado de lá do meu aluno. E volto a pensar sobre a morte. E sobre os pavores que a morte provoca.

Nota mental de 10.03: aula de ciências = nó na garganta.

Por muito tempo eu estive convencida de que achava triste o viver. E eu sequer tinha duas décadas de nascida quando confrontei pela primeira vez esse torpor. Achava que era a vida que era triste.

Mas não. A vida nunca foi triste.

O viver, esse de passar entrecortando a vida que já está aí há tanto, esse viver, que não é perene, esse sim. Este pode ser triste. E por muito tempo foi ele quem me causou tantas náuseas.

Atribuía, precocemente, meu desconforto de viver à ausência de sentido que achava que a vida deveria ter.
E ouvia de meu pai que passarinho algum procura sentido em viver, mas todos vivem. Voam e cantam. Comem e dormem. Nessa época, tão remota, não havia compreendido ainda a grandeza dos pássaros.

Não faz muito que percebi que a vida é muito maior que a minha existência,  e que mesmo assim, isso não diminui o sentido do meu viver. Estou a cruzar o caminho da vida há vinte e poucos anos. Pouco o suficiente para aceitar pacificamente o despropósito da vida. O acaso, a contingência.

Não é desconfortável pensar dessa forma, e tenho sempre que me policiar para lembrar que as dificuldades e o peso da vida também não são dela própria, senão meus. Afinal, a vida, depois que eu terminar de passar por ela, vai ser a mesma. Ela simplesmente acontece.

Outro dia eu conheci uma plenitude bonita. Era sol e tinha um lago. Pensei em tudo que fiz e venho fazendo. E nos planos que ainda me faltam fazer. E nos que eu já fiz e estou esperando não-concretizar para sobrar espaço para fazer mais. E nos que eu quero concretizar de verdade ainda.

E aí tive o prazer de conhecer o medo de morrer.

Nada disso extingue a minha melancolia.
Ele insiste em dizer pelo telefone que minha voz é triste.
E outrora já me falaram que embora doce, meu semblante é tristonho.
Mas não.  Não é tristeza.

Minha voz não é triste.
Meu semblante não é tristonho.
É o meu jeito de perceber a vida que me pinta de um jeito que para alguns remete à tristeza...mas que em última instância é só uma humildade perante o resto, que é o todo, porque o resto, do todo que eu inventei, sou eu.

Me lembrei de quando li o Borges dizendo que a angústia de morrer é saber que a vida vai continuar sem você. Do ponto de vista filosófico, talvez isso seja uma ignorância. Mas do ponto de vista da minha intuição, é isso. A vida, desde que se iniciou, sempre continuou.Vai continuar sem mim. O chato é que parece que ela não nos dá tempo de fazer quase nada.

Pensar isso tudo me faz ter saudade de mim.

E penso em Mersault, quando Camus o fez ter medo da morte pela certeza que a ele ela traria, a certeza de que sua vida foi consumida sem ele. Me remeto a Mersault e tenho medo. E aí antes de dormir, procedo ao ritual que adotei mais recentemente: ter a certeza de que venho consumindo doses exageradas de um viver propriamente meu, todos os dias.

"Know that one day I must die/ I'm alive..."

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A vida tá pra peixe!


Fevereiro é mês de Iemanjá.
O mar tá pra peixe, e eles chovem em mim.
A vida tá ficando cheinha deles. E eu cada vez mais Mar.
Marina: aquela que vem do mar, no latim.
No horóscopo, meu Sol tem formato de peixe também [ainda que recém saído do aquário].
Os peixes invadem o meu sono. Meus sonhos. Meu dia-a-dia.
E multiplicam-se.
Não por milagre divino, ou algo parecido.
Eles multiplicam-se em mim
Só me resta abraçar a água, me enxarcar em mar.
E torcer para que as próximas chuvas tragam mais peixes!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Quereres e tempos.


Depois de muito acreditar que o mundo que existe lá fora fui eu quem fiz, comecei a querer deixar essa ideia de lado.

É muita responsabilidade.

Tem coisas que não fui eu quem fiz. Que não fui eu quem quis. Que não sou eu quem diz.
Eu não queria que tanta coisa fosse como é, não. E eu nunca disse que queria.
E por vezes eu nunca sequer disse o que eu queria.
É que eu tenho dificuldade de querer certas coisas.

E os quereres, ah! Já até foram caetanizados.

Eu queria querer um monte de coisa. Mas as coisas que eu quero de verdade são muito simples.

Nesse momento eu só queria que o o tempo parasse junto com o relógio.
Mas só um pouquinho. Só pra eu conseguir respirar sem ver o ponteiro da vida passando.

Foi na Rita Apoena que eu li assim: "o relógio faz volta, mas o tempo, não.".

E é verdade.

E é verdade também que o relógio para. Mas o tempo, diz o refrão, o tempo não para.

O tempo não fica pendurado na parede, no pulso, ou em cordão. 
O tempo....é...aprendi que é relativo. Mas o relógio marca os segundos precisamente de acordo com o que foi estabelecido em alguma convenção desimportante. E a relatividade do tempo ainda não me ensinou a desmanchar essas horas tantas que de nada valem...



O tempo dói em mim hoje, enquanto o relógio dá voltas em minha cabeça.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Sobre pedaços e tamanhos de gente - 1

Se tento colocar os pés para dentro, a cabeça me sai.
E quando, com esforço, enfio a cabeça dentro desse negócio, a coluna entorta - e me dói.
Se cabendo a cabeça mantenho a postura ereta, a ponta do pé, mesmo que seja só a pontinha, acaba saindo.
E foi desse jeito que eu acabei crescendo: meio torta mesmo.

Os ombros tentam se encontrar formando uma semi-circunferência que costumam chamar de sifose, mas que é apenas o que restou de uma timidez.

E meus cabelos foram desenhados assim: tentam alcançar as estrelas na menor das manifestações de algum vento que sopre diferente.

Os pés vieram curvos, à imagem e semelhança dos de meu pai. Tem formato de meia lua, de maneira que estão sempre mais suspensos que encostados no chão. Devem querer estar mais na Lua que na Terra mesmo.

Embora torta, tenho ponta do pé e de cabeça.
Cinco pontas de dedo em cada mão
E outras cinco em cada pé.
Foi a moldura. Foi só a moldura que veio errada.

Porque diabos nos fazem molduras tão apertadas?

Eu poderia mesmo ter vindo em uma moldura maior.
Nessa, acabei ficando sem enquadramento.
Mas não tem problema.
Depois daqueles vanguardistas famosos, pedaços de gente e gente torta  são também obras de arte.
E eu fui feita assim.
Pequenos pedaços meio tortos.
Que hoje estão espalhados.

Talvez algum deles esteja caído aí, em você.
Se você achar, pode me devolver. Vou colar.
Ainda bem que, hoje em dia, até mesmo as colagens são obras de arte.
Ah!!!...........os modernistas..!!!


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Classificados

Na primavera passada eu colhi várias sementes de vento leste.
Elas parecem aqueles feijões que saltam.
Estão sempre na iminência de soprar.
O vento sai do leste em direção ao oeste.
E para aqueles que buscam o Oriente, elas não servem.
Sempre vão soprar na direção do des-oriente.
Se você anda muito bem orientada/o, é bom plantar algumas.

Hoje e amanhã, nos classificados do  Correio Braziliense.


É claro que eu só faço a entrega pessoalmente. Eu tinha que ser muito desorientada para mandá-las pelo correrio. É claro que elas não achariam o rumo.

Obrigada pelas eternas contribuições, professor @arautonho !