Mostrando postagens com marcador Da escola.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Da escola.. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de março de 2010

O lado de lá de cada um

Fungos e bactérias são seres decompositores.
Eu tenho que ensinar isso de vez em quando. Pelo menos uma vez por ano em alguma série.

E eu digo: "imaginem se não existisse o processo de decomposição, teríamos que conviver com todos os cadáveres de todos os seres vivos que já existiram no planeta Terra."

E ele me pergunta, em seus 10 anos de idade: "Professora, por que quando as pessoas morrem e vão se decompor as pessoas choram?".

E depois eu dou essa aula novamente em outra turma. E as crianças divergem de mim. Não acreditam que os ossos também sofrem o processo de decomposição.
Mas eu ensino que sim, que demora muito mais, mas que os ossos também se decompõem.

E ele, em seus 11 anos, em alto e bom som: "Essa hora meu pai já foi todo decomposto então, ele morreu já tem uns 4 anos. Deve ter sobrado só osso."

Eu fico sofrida quando escuto essas coisas. E passo por elas pensando: sabe-se lá como é o lado de lá do meu aluno. E volto a pensar sobre a morte. E sobre os pavores que a morte provoca.

Nota mental de 10.03: aula de ciências = nó na garganta.

Por muito tempo eu estive convencida de que achava triste o viver. E eu sequer tinha duas décadas de nascida quando confrontei pela primeira vez esse torpor. Achava que era a vida que era triste.

Mas não. A vida nunca foi triste.

O viver, esse de passar entrecortando a vida que já está aí há tanto, esse viver, que não é perene, esse sim. Este pode ser triste. E por muito tempo foi ele quem me causou tantas náuseas.

Atribuía, precocemente, meu desconforto de viver à ausência de sentido que achava que a vida deveria ter.
E ouvia de meu pai que passarinho algum procura sentido em viver, mas todos vivem. Voam e cantam. Comem e dormem. Nessa época, tão remota, não havia compreendido ainda a grandeza dos pássaros.

Não faz muito que percebi que a vida é muito maior que a minha existência,  e que mesmo assim, isso não diminui o sentido do meu viver. Estou a cruzar o caminho da vida há vinte e poucos anos. Pouco o suficiente para aceitar pacificamente o despropósito da vida. O acaso, a contingência.

Não é desconfortável pensar dessa forma, e tenho sempre que me policiar para lembrar que as dificuldades e o peso da vida também não são dela própria, senão meus. Afinal, a vida, depois que eu terminar de passar por ela, vai ser a mesma. Ela simplesmente acontece.

Outro dia eu conheci uma plenitude bonita. Era sol e tinha um lago. Pensei em tudo que fiz e venho fazendo. E nos planos que ainda me faltam fazer. E nos que eu já fiz e estou esperando não-concretizar para sobrar espaço para fazer mais. E nos que eu quero concretizar de verdade ainda.

E aí tive o prazer de conhecer o medo de morrer.

Nada disso extingue a minha melancolia.
Ele insiste em dizer pelo telefone que minha voz é triste.
E outrora já me falaram que embora doce, meu semblante é tristonho.
Mas não.  Não é tristeza.

Minha voz não é triste.
Meu semblante não é tristonho.
É o meu jeito de perceber a vida que me pinta de um jeito que para alguns remete à tristeza...mas que em última instância é só uma humildade perante o resto, que é o todo, porque o resto, do todo que eu inventei, sou eu.

Me lembrei de quando li o Borges dizendo que a angústia de morrer é saber que a vida vai continuar sem você. Do ponto de vista filosófico, talvez isso seja uma ignorância. Mas do ponto de vista da minha intuição, é isso. A vida, desde que se iniciou, sempre continuou.Vai continuar sem mim. O chato é que parece que ela não nos dá tempo de fazer quase nada.

Pensar isso tudo me faz ter saudade de mim.

E penso em Mersault, quando Camus o fez ter medo da morte pela certeza que a ele ela traria, a certeza de que sua vida foi consumida sem ele. Me remeto a Mersault e tenho medo. E aí antes de dormir, procedo ao ritual que adotei mais recentemente: ter a certeza de que venho consumindo doses exageradas de um viver propriamente meu, todos os dias.

"Know that one day I must die/ I'm alive..."

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Nós e os animais: histórias de vida penduradas em cordel

Jessuy

Jessuy comeu um tatu. E o tatu passou a ser o animal que escolhera para contar um pedacinho de sua história. Jessuy não gosta que errem a pronuncia de seu nome, que deve ser feita como no francês 'Je sui'. É porque o nome dela é esse mesmo: "eu sou" em francês. Bem lá dentro do Brasil, dentro de Tocantins, foi assim que ditaram no cartório. Com Y e dois S. E assim ficou...


Jessuy foi a primeira a responder, sem hesitar: o animal que mais marcou a sua história de vida foi o tatu.  E logo os colegas começaram a dizer os seus animais emocionais: vaca, cavalo, periquito, papagaio, cachorro, gato, onça, jumento. Nós não queríamos ficar de fora - um recurso didático, talvez - e complementamos com os nossos animais emocionais: cigarra e joão-de-barro. Não foi assim, Antônio?


Jessuy nos contou sobre o final de semana em que não havia nada para comer. Quando sua mãe, avassaladoramente mãe, foi à caça de um animal, levando consigo um cachorro da raça 'balaio'. Balaio, pra gente daqui, é aquele cachorrinho peludinho e pequeno. Bom, entendi que balaio, em brasiliense, é poodle.


A mãe de Jessuy se perdeu na mata e voltou somente na manhã seguinte. Trouxe consigo o almoço e o jantar: um tatu. Na época, segundo Jessuy, o tatu não foi preparado no leite de coco não, mas serviu bem pra matar a fome das crianças.

Valter

Quando Valter escreveu 'onça' em sua tarjeta laranja, todo mundo ficou impressionado. Principalmente eu. Sempre gostei de histórias de onças e já quase fui atacada por uma onça imaginária em uma barraca de camping. Acho que, quando pequena, um dos livros que eu mais gostei foi 'O saci', do Monteiro Lobato. Eu delirava com a fuga de Pedrinho e o saci da tal onça.


Um dia foi com seu pai tocar o gado, que era manso. Mas pra não espantar, o pai pediu que esperasse por ali perto da mata, sentado em uma pedra. Engraçado que pra contar da onça, o Valter insistiu em invocar o pai inúmeras vezes. E sempre com muito respeito. Acho que a história é metade da onça, metade do pai.O medo que sentia do que o pai pensaria do medo que sentia da pegada da onça. E o medo que sentiu ao ver a onça. E o medo que sentia de contar pro pai, que era um pouco nervoso, que havia visto uma onça bem ali, logo ali, onde aguardava o pai "ajuntar o gado". E era uma onça preta. A onça preta encarou Valter, que não soube se ficava ou se corria, se o bicho pegaria ou comeria. E que não sabia sequer se o pai merecia saber da história. Mas correu. Espantou o gado. Deixou o pai nervoso. Não disse nada. E, no caminho pra casa, ouviu várias vezes a onça seguindo seus passos.  Irresistível a tentação de olhar para trás. Muito medo de confirmar o perigo. Irresistível. A olhadela revela: dessa vez eram só alguns bezerrinhos.

Jelson

E foi o Jelson que contou, com a cara mais lavada do mundo, que seu animal preferido é o cachorro. É. Eu e o Antônio já sabíamos que os cachorros apareceriam diversas vezes como marcas importantes nas histórias de vida. Mas essa história era um pouco diferente, e de difícil digestão para mim. O Jelson saía com o cachorro para caçar animais na mata, no interior do Piauí. Era fácil achar o rastro do veado à noite, esperar vê-lo comendo os frutos caídos no chão, decorar a sua rota, e atirar no dia seguinte. Eu fiquei triste. Mas eu não tenho essa história de vida pra pendurar no meu cordel por ter uma outra hisória de vida tão distante desta em certo momento. Então deixei essa passar sem sofrimento.

Vicente

Foi divertido quando Vicente mencionou a importância do jumento como animal de carga e transporte em sua cidade. Antônio não se conteve: "Vicente, quando uma pessoa diz que a outra é um jumento, você acha que quem está sendo xingado é o jumento ou a pessoa?".  E André logo disse: "o jumento", rememorando em voz alta a importância do animalzinho de carga no interior do Maranhão em que nasceu.
 
Isso sem contar nas historias dos papagaios que falam, que falavam, e que animavam a vida dos pequenos. E nos cavalos que eram verdadeiros brinquedos de crianças.
 
Bem...no final eu contei sobre as cigarras e tudo que a minha infância trazia sobre elas. E o Antônio falou sobre o João-de-barro. Mas a gente logo percebeu que nossas histórias eram sem graça, eram pobres. Só podiam mesmo virar poesia, porque a gente é quem põe a poesia na vida. E só.

E a noite de terça-feira seguiu assim. Muitas histórias pra ouvir. Algumas risadas. E a sensação feliz de que encontrar o Antônio pra trabalhar junto foi um presente de 2009. E a gostosura de ter agora um novo grande amigo que eu amo.