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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ponto de fuga.

Foi em julho desse ano, em São Paulo.

Me disseram para olhar para o Oceano.
Quero dizer, me disseram para imaginar o oceano.

"Qualquer que seja a altura em que se observa, o horizonte estará na linha dos olhos"

É a linha do horizonte.

Se quiser perspectiva, aí você deve utilizar os pontos de fuga. 1, 2, 3 ou muitos pontos de fuga!

Muitos pontos de fuga?
Nunca pensei ouvir isso. Nunca pudera imaginar o quão fácil seria encontrar um ponto de fuga, quiçá múltiplos!
Não sei como eu não imaginara antes. Que óbvio.

É lógico que é no oceano que estão todos os pontos de fuga.
Não é preciso ser nenhuma encantadora de baleias para descobrir isso.

Basta olhar lá, na linha do horizonte.
É lá que estão os nossos pontos de fuga.

Desde então eu tenho procurado por eles, mas sempre me parecem muito longe.

Como faz pra chegar a linha do horizonte mais pra perto?
Como alcança ela?
Será que dá pra burlar a lei do espaço, ou então encontrar esse tal espaço curvo, e alcançar a linha?
Se der, fica um pouco mais fácil.

Uma vez alcançada a linha é só se equilibrar um pouquinho para caminhar até o ponto de fuga mais próximo.
E pronto.

Foi quando ele perguntou: "Onde está o ponto de fuga, turma?"

E eu respondi: no mar.

A turma riu.

Na hora do storyline, ele não hesitou: Marina se perde na linha do horizonte e não acha o ponto de fuga.


Passado o trauma, meses depois, resolvi devolver, a quem quer que seja o dono, as tais. 

segunda-feira, 29 de março de 2010

Só posso agradecer!

Idos de 1985, quando morávamos na Casa.

As águas de março que fecharam o verão de 1984 me trouxeram uma irmã.
Eu tinha exatamente 1 ano, 1 mês e uma semana.
Me contaram que quando ela chegou em casa, bem miudinha, a primeira coisa que eu fiz foi aplicar-lhe um beliscão.
Meu pai diz que era ciúmes. Pode ser que tenha sido. Tem certas coisas que não dá pra explicar a uma pequena primogênita. Eu tinha muito pouco tempo a mais nesse mundo.
O fato é que eu certamente não imaginava o que estava por trás de uma caçula.
Eu tenho uma irmã pequena, de 26 anos de idade.
E já nem sei mais me significar sem.
Há 26 anos meus pais me deram a Bebel de presente.
E foi assim que eu conheci a fidelidade.
Bebel é fiel. Fiel de verdade.
E eu daria o mundo por ela.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

De pequena II

“Vi uma nuvem pequena/coitada da minhoca/acho que ela não viu”


Quando a gente é pequena, não importa o resto: não precisa usar camiseta. E pode andar descalço por aí.

O quintal de casa parece o mundo. O resto, que não fica dentro, é só um apêndice que inventaram pra ocupar o tempo do nosso brincar.

Quando a gente é pequena, pouco importa se está desproporcional: a camiseta do pai é uma grande e confortável camisola de dormir.

Eu não sei como é hoje em dia.
Ou como era nesses mesmos dias em outras famílias.
Mas na minha era assim.

A gente brinacava no quintal, que tinha mais de 20 mil metros quadrados.
E corria sem camiseta. E sem frescura.
Se sujava de manga, pulava na piscina, subia em todas as árvores possíveis.
E ninguém reclamava.
E isso não foi há 50 anos atrás.
Foi há menos de 20, aliás.

Quando eu era pequena não ganhava brinquedos eletrônicos. Eu queria um "Walk machine" e um vídeo game. Mas meu pai dizia que os brinquedos eletrônicos brincavam pela gente.
E no lugar eu ganhava bicicletas, patins e um parquinho inteiro do lado de fora de casa.

Em pequena, no meio da manhã, tinha um encontro marcado com o suco de salada.
E nas manhãs de Sol eu nem queria dar bom dia para a nave da xuxa, porque sempre tinha muita coisa me esperando lá fora.
E passava o dia a correr com os pés descalços.

Outro dia ela me disse assim: "o seu pé é muito grosso, como é que o seu namorado faz carinho no teu pé?"

É que meu pé é rural mesmo. Ele recebeu, por anos e anos, carinho da grama, da terra e do cascalho. Esse carinho agora é uma tatuagem. Quem passa a mão no meu pé reconhece sinestesicamente, mesmo sem conhecer, a minha infância feliz.

Hoje eu senti saudade da casa.
Mas não deve ser por acaso que sem C, casa é asa.
Por um lado é bom que a casa tenha voado.
Virou cenário em memória doce.
Parafuso de saudade.



No fundo do pomar
carambolas e mangas
férias de verão

Tarde de Sol
nuvenzinha come doce
dia de obrigação

Explosão de amor
quando chega novembro
a piscina é dos sapos

Manga coquinho,
tesouro do dia:
só o vizinho tem

De pequena.


Algumas coisas são desde pequena.

Hoje um aluno me disse que desde pequeno ele gosta de aviões. E ele tem 11 anos.
Eu tenho bem mais que isso. Mais que o dobro disso, na verdade.
E também tenho o meu desde pequena.
E pensava sobre isso esses dias, já que venho completando aí minha 27ª revolução solar.

Desde pequena gostava de bichos.
Mas muito pouco dos bichos domésticos. E assutei meu homeopata, o doutor jaquinho, quando ele me perguntou: você gosta de animais?
"Gosto muito!"
"E qual o animal que você mais gosta?"
"Gosto de insetos e baleias"

Ele não encontrou no guia de homeopatia esse sintoma.

Mas sempre foi assim.
Quando eu assisti "Orca, a baleia assassina" eu não tinha mais que 9 anos.  É um filme da década de 70. Eu chorei muito. É que no filme um cara mata uma orca fêmea e ela aborta um filhote que está esperando. Passei o filme todo torcendo para a orca macho destruir a embaração e matar todos os tripulantes que mataram a orca fêmea.
Eu não tinha 6 anos de idade quando ganhei do meu pai uma gaiola de periquitos. E eram periquitos, segundo meu pai, de muitas cores. No primeiro instante em que tive a gaiola ao alcance das mãos e distante dos olhos de meu pai, não tive dúvidas. Soltei os bichinhos.
Mas não tive tanta solidariedade interespecífica quando a professora Liana, da 6 série, nos pediu como trabalho para o 4 bimestre uma coleção de insetos. Eu passaria dias e dias no meio do mato coletando insetos. Nessa época o Park Way ficava no meio do mato...literalmente. Não esqueço quando as antenas da borboleta azul (que hoje sei que anda em processo de extinção) caíram. Tratei de colocar no lugar dois fiabos de piaçava, que tirei de uma vassoura. É que a professora disse que os insetos tinham que estar inteiros...
Tive também uma coleção de lesmas, que eu tentava manter em uma caixa de sapatos e alimentar com alfaces. E gostava de capturar os girinos da piscina, que meu pai não mandava limpar na chuva e virava local de reprodução de anfíbios. Uma vez coloquei os girinos pra nadar na pia da churrasqueira, que enfeitei com pedras e flores. Tampei o ralo com pedrinhas menores. Não sei quem foi que abriu o ralo, mas sei que algum tempo depois a pia da churrasqueira estava entupida. Quando meu pai mandou ver o que era, eram pequenos sapinhos mortos.
E ainda me lembro de quando, na escola, enlaçava linha de costura em cigarras vivas, na expectativa de brincar de pipa. Ou quando estabelecíamos, minha irmã e eu, uma competição para ver quem catava mais tatuís na praia de Saquarema.
Quando me ofereceram, na AABB, uma vara de pescar e isca, sofri. Não acreditava que meus amigos eram capazes de pescar os bichinhos, vê-los feridos debatendo-se na vara, e depois, como se nada tivesse acontecido, devolvê-los ao Lago.
E mesmo que tenha memórias mais trágicas sobre alguns bichos de infância [quando eu e minha irmã fomos atacadas por marimbondos na piscina, ou quando me "queimei" em uma taturana e tive febre!], eu hoje percebo que foi sempre assim desde pequena. Desde pequena eu gosto de bichos.

Hoje, na aula da noite, uma andorinha entrou na sala. Estranho andorinha tão ativa à noite.
E ela voou várias vezes. E a aula parava todas as vezes que isso acontecia.
Algumas pessoas se assustavam com o voo da andorinha.
E eu me assustei com quem se assusta com o voo de um passarinho.

Tem coisas que são nossas de pequena.

Tem gente que de pequena gosta de carros.
Tem gente que de pequena gosta de planetas.
Tem gente que de pequena gosta de números.
Tem gente que de pequena gosta de gente.

Ainda bem que tem gente de todo tipo. E todo tipo de gente nessa vida.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Flor da manhã.

Era sempre bom quando ela desabrochava em meu dia-a-dia, na capital federal.
E agora é tão raro.
Agora é calendário: é em julho e janeiro. E olhe lá.

Sempre me lembro da grande proporcionalidade que encontrava nos segredos que me trazia. E sempre com muita tensão. A desimportância que tinham para mim era do mesmo tamanho da importância que ela aplicava a cada um deles.Eu nunca entendia, só respeitava.

Foi quando ela pediu de presente de aniversário 5 reais a cada amigo que grande parte de nossas vidas viraram fotografias - em sépia-preto-branco-colorido. E passamos a guardar em nossas pastinhas amarelas virtuais incontáveis megas de memórias. E isso já tem uns lá-se-vão quatro anos.

De nós todas, ela foi a que mais demorou a querer o que a gente queria. E a gente queria tanto que ela quisesse o que a gente queria. Mas a gente queria cevada e coisas do gênero. E ela? Creme de brócolis, água tônica, café.

Era muito mais amiga do Sol que da Lua. Mas era tão nossa amiga que teimava em resistir até as tantas do relógio mesmo que seus cílios superiores forçassem encontros casuais com os inferiores, já a tantas da madrugada, quando não acompanhava o ritmo frenético dos amigos mais desapegados do Sol. E nos explicaria que precisava colocar as costas ao chão - pois elas doíam. E que fecharia o olho, mas só por 5 segundinhos.E assim justificava o nome que recebera dos pais. Ela me disse uma vez que significa, em tupi, "flor da manhã".

De vez enquando suas ecnonomias a apertavam. Então ela alinhava em um fio de nylon um monte de miçanga colorida. Algumas brilhavam. E brilhavam com elas os olhos das meninas que se sentavam às mesas de bar. E era assim que ela garantia o seu carnaval e o ingresso pro show daquela banda que gostava.

O problema é que passar o carnaval, as férias, o reveillon ou qualquer outra data teoricamente mais importante longe da família, lhe custava uma grande dose de ácido clorídrico no estômago. E algumas lágrimas. Isso porque sempre estava rodeada de certeza de que seus pais ficariam chateados. E chatear os seus pais era um medo tão grande, que era uma de suas maiores chateações. E nós, que não conseguíamos alcançar com a mesma emoção todo esse sentimento, ficávamos chateados também. E tantas vezes impacientes.

E foram tantas as vezes em que me ligaria angustiada, pedindo opinião. E depois pedir mais mil vezes a mesma opinião. E ficar confusa. E ansiosa. E angustiada.... E foi entre algumas dessas confusões e angústias que ela decidiu por ir embora.

Ela era sempre cheia de histórias e piadas. E comentários inusitados. E não tinha quem não gostasse. E manteria suas amizades mais antigas. Com dedicação. Quando chegasse em São Paulo ligaria até mesmo pra Silvinha, aquela que faz circo e que era amiga da primeira infância.

Fui com ela pro Rio. E fui com ela pra Buenos Aires. E pra São Paulo. E pra Pirinópolis. E pro Rio-de-Janeiro. E pra Goiânia. E pra 3456 festas, shows, filmes, bares e cafés. E pra UDV. E pra casa de sei-lá-quem-fazer-sei-lá-o-quê. Quando essas casas tinham um piano, ela tocaria a marcha nupcial.

E me telefonava 344 vezes por dia. E me ajudava a pensar 123213 questões. E dormia na minha casa mesmo que o colchão fosse daqueles infláveis e ela acordasse dormindo no chão. E para dormir, uma vez,  até compramos pijamas iguais. E também tínhamos saias, calças, calcinhas e sutiãs iguais também.

Invariavelmente ela seria amiga de todos os meus namorados. Porque era companheira de verdade. E quando o namorado ia embora, pq a vida levava, ouviria pacientemente 32432 lamentações repetitivas. E até hoje, quando esses misteriosos seres do sexo oposto se costuram à minha vida, ela me ouve. Mesmo que agora paguemos muito mais caro por isso. É que agora é DDD, né?

E agora, confirmando o que vem acontecendo nos últimos janeiros da minha vida, ela chegou. E pudemos tomar café, comer salada, assistir filmes e trocar, entre as amigas, as roupas que não nos servem mais e as histórias de nossas vidas que tanto nos servem. E aquelas que não servem mais também. E ainda temos muito pela frente. Até que fevereiro chegue e a leve de volta à beira-mar.