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domingo, 8 de agosto de 2010

Joaquim



A chegada do Joaca


Câncer é um signo do elemento água e tem a Lua como "planeta regente".

Eu penso que a história de um canceriano se faz assim:

Entre junho e julho os caranguejos fazem a festa.
Trazem presentes da água, para a gente que está tão enfadado de terra.
Trazem presentes da Lua, para a gente que está tão enfadado de Terra.
Eles caem da Lua diretamente no mar e, então, são resgatados por um caranguejo.
Os caranguejos, decápodas, carregam então, para fora da água, os pequenos recém-nascidos.
E os entregam a mães e pais que aqui esperam, com a seguinte mensagem:

"Por um mundo mais sensível: um pequeno canceriano".

Hoje, 08/08, é o primeiro dia dos pais do Joaquim. E do pai do Joaquim, como pai.
E amanhã ele completa seu primeiro mês de vida.
Já é um pequeno experiente.

Estamos felizes com esse novo canceriano no mundo.

sábado, 19 de junho de 2010

Sobre moluscos I


Não há terapeuta ou analista que dê jeito.

Dura demais por fora, frágil demais por dentro.
E sua maneira altamente dispendiosa de lidar com os incômodos.
Proteção demais contra o que parece ser o mundo, evitando deixar a mostra a qualquer um seu interior frágil, delicado, sensível.
Proteção cara; muita matéria e muita energia devotadas ao trabalho de enconchar-se rigidamente.
Para cuidar de sua organização interna resguarda-se de maneira quase hermética. E funciona sempre assim. Seus problemas não são devolvidos ao meio. Não são regorgitados ao público. Não adquirem formato poético, ou musical.
São todos trabalhados cuidadosamente em seu interior.

E não é pra menos.
A organização interna nossa de cada dia é coisa que se deve cuidar direito. E, para ela, os livros de auto-ajuda são deliciosamente desnecessários.
Sem essa de expurgar os demônios, ou de gastar rios de dinheiros em sessões de falatório.
Parece que nasceu sabendo que os incômodos são sempre internos. E que o outro existe mediante e em continuidade com o "eu'. Que o outro, ela constoi - enquanto constroi a si mesma. Esse outro ela só pode apreender quando ele está exatamente em seu interior. Então o incômodo com o outro só pode ser, em última instância, um incômodo consigo mesma.

Foi sem notar que aprendeu, ao longo de toda a sua onto-filo-genia, a guardar um incômodo sem transformá-lo em câncer. E aqueles que sugerem que os problemas devam ser deixados de lado a reprovariam na certa. Ela não deixa incômodos de lado. Cada um deles é irremediavelmente transformado em pérola.

Está, entretanto, em alerta permanente: há o eterno grande risco de que surja, de algum lugar, um alguém em busca de problemas alheios. Esses sempre vêm. E violentamente destruirão toda a sua rígida armadura proterora, em busca de seus incômodos perolados. Nobres incômodos. Então, seu interior, mole, não poderá mais contornar futuros incômodos. Se der sorte, seu esqueleto rígido restará misturado à areia, e talvez seja devolvido à praia por uma maré de sorte. Sobre as areias da praia encantarão crianças. E alguns adultos. E casais de namorados, que coletam conchinhas procurando dar vazão a tanto gostar.


Fatos da vida cotidiana, nada mais.

O que aprender com moluscos:

I. Fabricar a dureza, de dentro pra fora.
    Casca dura, miolo mole.
    Esse ensinamento fica para a vida toda.
    Como podemos construir uma casca dura? Uma concha? E continuar moles por dentro?
[Hay que endurecer, pero sin perder la ternura!]

II. Confeccionar pérolas a partir de alguns invasivos incômodos.
Como tornar cada um de nossos incômodos tão 'nobres'?.

III. Carregar em si o que chama lar.
Como carregar nas costas a própria casa, casa-concha,limite do ser, que protege, porém distancia.

Casa-caixa.

IV. A tranquilidade de caracolar vagarosamente por entre o destino.

V. Há que se conchar.

1) Eu concho.
2) Tu conchas.
3) Ele concha. Ela também.
4) Caracol concha.
5) Ostra concha.
6) Pensamento concha?

Incômodo de ostra
não vira lupo, nem câncer
vira pérola

Problema de ostra
pequeno grão de areia
que o manto encobre

Caiu um grãozinho:
na ostra uma pérola,
na menina um brinco.

Conchinhas na areia
pérolas no cordão
morreu o bichinho.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Das propriedades da água

Quando puder lavar a alma como se lava um apartamento
e deixar na água tudo o que pesa,
flutuará no espaço.
[recomenda-se, para tanto, água do mar.]


Dentro d`água
desova de pesares
entre marés

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Síndromes de polinização

Onirofilia invertida


Dá-se às síndromes de polinização os seguintes nomes:

- Entomofilia: polinização por insetos; para generalizações.
- Anemofilia: polinização pelo vento.
- Ornitofilia: polinização por aves.
- Hidrofilia: polinização pela água.
- Cantarofilia: plinização por besouros.
- Psicofilia: polinização por borboletas.
- Falenofilia: polinização por mariposas
- Melitofilia: polinização por abelhas e vespas
- Miiofilia: polinização por moscas

O peso do grão de pólen garante, à abelha, a próxima flor. [ainda que ela não viva o tempo necessário para beijá-la]. Depois da polinização vem a fecundação.
E nas potencialidades do pólen, quem sabe flores, quem sabe bem-me-queres, quem saber mal-quereres, "o doce e o amargo da fruta". E quem sabe hibridizações e novas ploidias. Novas configurações. Novos bem-quereres, mal-quereres, doces e amargos.
Gosto do híbrido, que não tem nome científico. E do torto.

[Quanto espaço há nesse mundo para amores meio tortos?]

Eu gosto de ser polinizada. E de ser pólen.
Eu gosto da fecundação cruzada, mais que da autofecundação. Gosto da inter-polinização.

"Quantos mal-me-quer podem caber em uma única flor?"




quinta-feira, 18 de março de 2010

Ainda sobre garotas e peixes.

Percebi hoje que eu perdi um sem número de pensamentos tristes.
Eles eram tristes, mas me inspiravam.
Hoje, sem eles, fico despalavreada.

Continuo peixando, como bem sei fazer.
Mas não em um aquário.
O mundo de hoje é líquido demais. Peixar tá cada dia mais fácil. Nem é preciso recipiente específico.
Peixar por aí é lema de vida.
Mas há que se ter em mente o seguinte: sempre se deve peixar a fuga do aquário, pois por maior que seja o aquário, ele sempre será um aquário.    


"As pessoas creem perseguir as estrelas e acabam como peixes-vermelhos num aquário"

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

De pequena.


Algumas coisas são desde pequena.

Hoje um aluno me disse que desde pequeno ele gosta de aviões. E ele tem 11 anos.
Eu tenho bem mais que isso. Mais que o dobro disso, na verdade.
E também tenho o meu desde pequena.
E pensava sobre isso esses dias, já que venho completando aí minha 27ª revolução solar.

Desde pequena gostava de bichos.
Mas muito pouco dos bichos domésticos. E assutei meu homeopata, o doutor jaquinho, quando ele me perguntou: você gosta de animais?
"Gosto muito!"
"E qual o animal que você mais gosta?"
"Gosto de insetos e baleias"

Ele não encontrou no guia de homeopatia esse sintoma.

Mas sempre foi assim.
Quando eu assisti "Orca, a baleia assassina" eu não tinha mais que 9 anos.  É um filme da década de 70. Eu chorei muito. É que no filme um cara mata uma orca fêmea e ela aborta um filhote que está esperando. Passei o filme todo torcendo para a orca macho destruir a embaração e matar todos os tripulantes que mataram a orca fêmea.
Eu não tinha 6 anos de idade quando ganhei do meu pai uma gaiola de periquitos. E eram periquitos, segundo meu pai, de muitas cores. No primeiro instante em que tive a gaiola ao alcance das mãos e distante dos olhos de meu pai, não tive dúvidas. Soltei os bichinhos.
Mas não tive tanta solidariedade interespecífica quando a professora Liana, da 6 série, nos pediu como trabalho para o 4 bimestre uma coleção de insetos. Eu passaria dias e dias no meio do mato coletando insetos. Nessa época o Park Way ficava no meio do mato...literalmente. Não esqueço quando as antenas da borboleta azul (que hoje sei que anda em processo de extinção) caíram. Tratei de colocar no lugar dois fiabos de piaçava, que tirei de uma vassoura. É que a professora disse que os insetos tinham que estar inteiros...
Tive também uma coleção de lesmas, que eu tentava manter em uma caixa de sapatos e alimentar com alfaces. E gostava de capturar os girinos da piscina, que meu pai não mandava limpar na chuva e virava local de reprodução de anfíbios. Uma vez coloquei os girinos pra nadar na pia da churrasqueira, que enfeitei com pedras e flores. Tampei o ralo com pedrinhas menores. Não sei quem foi que abriu o ralo, mas sei que algum tempo depois a pia da churrasqueira estava entupida. Quando meu pai mandou ver o que era, eram pequenos sapinhos mortos.
E ainda me lembro de quando, na escola, enlaçava linha de costura em cigarras vivas, na expectativa de brincar de pipa. Ou quando estabelecíamos, minha irmã e eu, uma competição para ver quem catava mais tatuís na praia de Saquarema.
Quando me ofereceram, na AABB, uma vara de pescar e isca, sofri. Não acreditava que meus amigos eram capazes de pescar os bichinhos, vê-los feridos debatendo-se na vara, e depois, como se nada tivesse acontecido, devolvê-los ao Lago.
E mesmo que tenha memórias mais trágicas sobre alguns bichos de infância [quando eu e minha irmã fomos atacadas por marimbondos na piscina, ou quando me "queimei" em uma taturana e tive febre!], eu hoje percebo que foi sempre assim desde pequena. Desde pequena eu gosto de bichos.

Hoje, na aula da noite, uma andorinha entrou na sala. Estranho andorinha tão ativa à noite.
E ela voou várias vezes. E a aula parava todas as vezes que isso acontecia.
Algumas pessoas se assustavam com o voo da andorinha.
E eu me assustei com quem se assusta com o voo de um passarinho.

Tem coisas que são nossas de pequena.

Tem gente que de pequena gosta de carros.
Tem gente que de pequena gosta de planetas.
Tem gente que de pequena gosta de números.
Tem gente que de pequena gosta de gente.

Ainda bem que tem gente de todo tipo. E todo tipo de gente nessa vida.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A vida tá pra peixe!


Fevereiro é mês de Iemanjá.
O mar tá pra peixe, e eles chovem em mim.
A vida tá ficando cheinha deles. E eu cada vez mais Mar.
Marina: aquela que vem do mar, no latim.
No horóscopo, meu Sol tem formato de peixe também [ainda que recém saído do aquário].
Os peixes invadem o meu sono. Meus sonhos. Meu dia-a-dia.
E multiplicam-se.
Não por milagre divino, ou algo parecido.
Eles multiplicam-se em mim
Só me resta abraçar a água, me enxarcar em mar.
E torcer para que as próximas chuvas tragam mais peixes!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Tirania



Tem alguns sonhos que deixam a gente meio mole.
Daqueles sonhos que nos primeiros momentos do pós-sono deixam moles as mãos, os joelhos e as batatas das pernas.
E quando a gente percebe que era sonho (e não avatar!), a respiração dói e fica difícil. Temos que nos concentrar bem pra não sobrecarregarmos nossos pulmões.
Uma doce melancolia lastreada em algo que não é real nos dá vontade de voltar a sonhar.
E aquele suspiro sem razão de ser, que não quer dizer muito mais do que o que diz, toma conta do nosso "Bom dia".

Sem pedir licença, esses sonhos trazem para o coração o que já quase nem existe na razão.

E eles nunca pedem licença.

Ainda tão pra inventar alguma coisa mais tirânica que os sonhos....


sábado, 16 de janeiro de 2010

Quereres e tempos.


Depois de muito acreditar que o mundo que existe lá fora fui eu quem fiz, comecei a querer deixar essa ideia de lado.

É muita responsabilidade.

Tem coisas que não fui eu quem fiz. Que não fui eu quem quis. Que não sou eu quem diz.
Eu não queria que tanta coisa fosse como é, não. E eu nunca disse que queria.
E por vezes eu nunca sequer disse o que eu queria.
É que eu tenho dificuldade de querer certas coisas.

E os quereres, ah! Já até foram caetanizados.

Eu queria querer um monte de coisa. Mas as coisas que eu quero de verdade são muito simples.

Nesse momento eu só queria que o o tempo parasse junto com o relógio.
Mas só um pouquinho. Só pra eu conseguir respirar sem ver o ponteiro da vida passando.

Foi na Rita Apoena que eu li assim: "o relógio faz volta, mas o tempo, não.".

E é verdade.

E é verdade também que o relógio para. Mas o tempo, diz o refrão, o tempo não para.

O tempo não fica pendurado na parede, no pulso, ou em cordão. 
O tempo....é...aprendi que é relativo. Mas o relógio marca os segundos precisamente de acordo com o que foi estabelecido em alguma convenção desimportante. E a relatividade do tempo ainda não me ensinou a desmanchar essas horas tantas que de nada valem...



O tempo dói em mim hoje, enquanto o relógio dá voltas em minha cabeça.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O mundo está cheio de pensamentos confusos sobre peixes, asas e garotas.







Me confunde pensar peixes. Me asa peixar garotas confusas. Me pensa asar confusos peixes. Me asa confundir os peixes com garotas.  As garotas tem asas. Tem peixes. Tem pensamentos confusos.

 "O mundo está cheio de ideias confusas sobre ser uma garota".

domingo, 20 de dezembro de 2009

Sobre pedaços e tamanhos de gente - 1

Se tento colocar os pés para dentro, a cabeça me sai.
E quando, com esforço, enfio a cabeça dentro desse negócio, a coluna entorta - e me dói.
Se cabendo a cabeça mantenho a postura ereta, a ponta do pé, mesmo que seja só a pontinha, acaba saindo.
E foi desse jeito que eu acabei crescendo: meio torta mesmo.

Os ombros tentam se encontrar formando uma semi-circunferência que costumam chamar de sifose, mas que é apenas o que restou de uma timidez.

E meus cabelos foram desenhados assim: tentam alcançar as estrelas na menor das manifestações de algum vento que sopre diferente.

Os pés vieram curvos, à imagem e semelhança dos de meu pai. Tem formato de meia lua, de maneira que estão sempre mais suspensos que encostados no chão. Devem querer estar mais na Lua que na Terra mesmo.

Embora torta, tenho ponta do pé e de cabeça.
Cinco pontas de dedo em cada mão
E outras cinco em cada pé.
Foi a moldura. Foi só a moldura que veio errada.

Porque diabos nos fazem molduras tão apertadas?

Eu poderia mesmo ter vindo em uma moldura maior.
Nessa, acabei ficando sem enquadramento.
Mas não tem problema.
Depois daqueles vanguardistas famosos, pedaços de gente e gente torta  são também obras de arte.
E eu fui feita assim.
Pequenos pedaços meio tortos.
Que hoje estão espalhados.

Talvez algum deles esteja caído aí, em você.
Se você achar, pode me devolver. Vou colar.
Ainda bem que, hoje em dia, até mesmo as colagens são obras de arte.
Ah!!!...........os modernistas..!!!


domingo, 13 de dezembro de 2009

Quem foi?



Ao menor sinal da sua presença, elas voam.
Quando o telefone toca o MP3 que escolhi para quando você me chamasse, elas voam.
Quando meu telefone celular acusa uma mensagem e eu penso que pode ser você, elas voam.
Quando é dia de te encontrar e a hora se aproxima, elas voam insandecidamente.
E quando eu finalmente te vejo despontar no horizonte, elas voam tanto que chego a engasgar, porque  elas saem do estômago e vão até a minha garganta.
Aí eu te abraço antes de dizer oi, para dar tempo de engoli-las. E, aos poucos, elas pousam e descansam.
Elas são tão pontuais. Queria saber...
quem foi que amestrou essas borboletas?