terça-feira, 3 de novembro de 2009

Haikai

De início parece simples demais. E simples demais, muitas vezes, pode parecer pobre...ou, na melhor das hipóteses, nonsense.

Depois a gente desmistifica um pouco as coisas, o simples demais se torna elaborado. Aos pouquinhos a gente vê que menos é mais. E foi assim comigo e o Haikai.

De início, eu sentia falta do excesso de palavras. E agora eu penso que muitas vezes o excesso de palavras é que gera a falta. Agora, no meu encantamento cínico pela des-palavra, eu admiro os haikaístas.

5, 7, 5. E nessa contagem, que não deve extrapolar o 17, uma sugestão. Uma imagem capturada pelas lentes das palavras. Nada além disso, e tudo além disso. Um encantamento de vida que tem um quê de impermanência, de transformação. Um momento capturado em pequenos versos. Sempre, portanto, marcado por um kigo, que é um elemento que remete, geralmente, a uma das quatro estações do ano, mostrando que nada é fixo. "Viver o presente, buscar a essência, e valorizar a contemplação".

O haikai  "mais omite do que diz". E o resto é sentir. E o original japonês mesmo diz que não são necessários títulos ou rimas: elementos que geram um certo conforto... ["Ah...eu coloco um título aqui e o meu poema, que não tinha sentido, passa a ter..."].

Tá. Os poetas brasileiros não seguem nada disso a risca...e às vezes colocam título, e alguns até rima. E fica bom também. Ó:

Engano amigo
tenho a impressão
que a luz vem comigo
(Alice Ruiz)

Dia de Finados
Formigas carregam
Pétalas que caem.
(Jorge Lescano)

Pintou estrelas no muro
e teve o céu ao
alcance das mãos
(Helena Kolody)
 
Confira,
Tudo que respira
Conspira.
(Paulo Leminski)

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, a ruga.
(Guilherme de Almeida)

Namorando a lua

morreu na madrugada
o canto do inseto.
(Teruo Tonooka)

Um comentário:

  1. Adoro esse, do Paulo Leminski:

    tudo dito,
    nada feito,
    fito e deito

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